
A audiência lotou as dependências do Teatro Erotides de Campos (Mateus Medeiros)
A audiência pública para debater o tombamento estadual do Complexo Beira-Rio - convocada pela Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico (UPPH), braço técnico e executivo do Condephaat - lotou as dependências do Teatro Erotides de Campos, no Engenho Central.
O mesmo pedido também foi protocolado no Iphan, com o objetivo de que sejam estabelecidas diretrizes construtivas nas duas margens, entre as pontes Irmãos Rebouças e Francisco Prudente (do Morato).
Mas o tema central da audiência - como já era de se esperar - ficou com as manifestações favoráveis ou contrárias à construção de um conjunto com quatro prédios de apartamentos no terreno da antiga fábrica de Tecidos Boyes. O projeto imobiliário se arrasta há uma década, por conta da oposição de lideranças sociais que o consideram prejudicial à preservação do sítio histórico de toda a região da Rua do Porto.
Se alguém esperava que a audiência fosse uma ocasião para a exposição de propostas e debates de ideias, ficou frustrado. O auditório estava claramente divido entre os radicalmente contra o projeto e os radicalmente favoráveis. Não havia meio termo. Quem quer que se atravesse a usar o microfone, era ovacionado por seu grupo e vaiado pelos rivais. Era como um estádio, com duas torcidas adversárias se ofendendo a todo instante.
Na abertura da audiência, o presidente do conselho, Carlos Augusto Mattei Faggin, afirmou que a proposta era exatamente receber de todos os presentes suas ponderações a respeito do tombamento do complexo, e que nenhuma resolução seria tomada antes da avaliação criteriosa do órgão. Ele sabia que tratava de um assunto polêmico.
O fato é que ninguém estava no auditório para ouvir e aprender algo com os oponentes. Como num grande comício, a plateia tinha direito a cartazes e jingles. O principal interesse foi atrapalhar o discurso do rival.
Os dois lados
A batalha de discursos - que envolveu políticos, empresários, moradores, historiadores, professores, urbanistas, sindicalistas e advogados - ratificou o que já pensavam os rivais.
Os empresários consideram o projeto do Boulevard Mirante de Piracicaba -ou Boulevard Boyes, como já era conhecido - essencial para a preservação do acervo arquitetônico que restou da fábrica e para a revitalização de toda a área ao redor. Pela proposta dos empresários, os 31 mil metros quadrados de terreno terão, além das torres, espaço de lazer aberto ao público e um museu contando a história da tecelagem. A seu favor, os empreendedores contam com a aprovação técnica e jurídica do projeto, estritamente legal.
As lideranças ligadas ao Movimento Salve a Boyes, contrário ao empreendimento - afirmam que o boulevard vai provocar a desconfiguração visual e arquitetônica do complexo Beira-Rio, além de causar prejuízos certos à fauna local. Os críticos do empreendimento ainda afirmam que o projeto integra uma Área de Preservação Permanente prevista em lei, com regras definidas de ocupação, e desrespeita o próprio zoneamento previsto em lei, O grupo defende a desapropriação do terreno da Boyes e o uso dos galpões remanescentes da tecelagem como espaços culturais abertos ao público.