
Alagamento na avenida Armando de Salles Oliveira, em Piracicaba: a água das chuvas pode trazer a urina de ratos que contém a bactéria Leptospira transmissora da leptospirose (Arquivo/Gazeta de Piracicaba)
Com as chuvas constantes e muitas vezes o contato com a água das ruas devido aos alagamentos, os casos de leptospirose aumentaram em Piracicaba entre 2021 e 2022. Em 2021 foram 6 casos confirmados e em 2022 foram 8 (+33,5%). Houve uma morte em cada um dos anos.
Este ano o Sinan/VE (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), responsável por essas informações à Vigilância Epidemiológica Municipal, registrou por enquanto em Piracicaba um caso de leptospirose e nenhuma morte.
O contato com a urina do rato (o roedor é um dos principais vetores) ocorre principalmente quando a água suja invade as casas, nos traumáticos alagamentos, ou quando a pessoa pisa em ruas invadidas pelas águas.
De acordo com dados da Vigilância Epidemiológica Municipal, os anos de 2022 e 2023 ainda estão com informações provisórias.
Em se tratando de todo território nacional, os dados são preocupantes pois o número de mortes por causa de leptospirose aumentou mais de 70% nos últimos 2 anos. Entre 2021 e 2022, o número de casos aumentou 52% e, de mortes, 70%. Os dados nacionais, ainda preliminares, são do Ministério da Saúde (MS).
Segundo o MS, em 2021 foram 1765 casos e 175 mortes; em 2022 ocorreram 2681 casos e 298 óbitos.
A leptospirose é uma doença infecciosa febril aguda que é transmitida a partir da exposição direta ou indireta à urina de animais (principalmente ratos) infectados pela bactéria Leptospira; sua penetração ocorre a partir da pele com lesões, pele íntegra imersa por longos períodos em água contaminada ou por meio de mucosas, segundo explica a Vigilância Epidimiológica de Piracicaba.
O período de incubação, ou seja, intervalo de tempo entre a transmissão da infecção até o início das manifestações dos sinais e sintomas, pode variar de 1 a 30 dias e normalmente ocorre entre 7 a 14 dias após a exposição a situações de risco.
A doença apresenta elevada incidência em determinadas áreas além do risco de letalidade, que pode chegar a 40% nos casos mais graves.
Sua ocorrência está relacionada às condições precárias de infraestrutura sanitária e alta infestação de roedores infectados. As inundações propiciam a disseminação e a persistência da bactéria no ambiente, facilitando a ocorrência de surtos.
Tratamento
Para os casos leves, o atendimento é ambulatorial, mas, nos casos graves, a hospitalização deve ser imediata, visando evitar complicações e diminuir a letalidade. A automedicação não é indicada. Ao suspeitar da doença, a recomendação é procurar um serviço de saúde e relatar o contato com exposição de risco.
Os sintomas variam desde formas assintomáticas e subclínicas até quadros graves, associados a manifestações fulminantes. São divididas em duas fases: fase precoce e fase tardia.
Os principais da fase precoce são: febre; dor de cabeça; dor muscular, principalmente nas panturrilhas; falta de apetite; náuseas/vômitos. Também podem ocorrer diarreia, dor nas articulações, vermelhidão ou hemorragia conjuntival, fotofobia, dor ocular, tosse; mais raramente podem manifestar exantema, aumento do fígado e/ou baço, aumento de linfonodos e sufusão conjuntival.
Em aproximadamente 15% dos pacientes com leptospirose, ocorre a evolução para manifestações clínicas graves, que normalmente iniciam-se após a primeira semana de doença. Nas formas graves, a manifestação clássica da leptospirose é a síndrome de Weil, caracterizada pela tríade de icterícia (tonalidade alaranjada muito intensa - icterícia rubínica), insuficiência renal e hemorragia, mais comumente pulmonar. Pode haver necessidade de internação hospitalar.
O diagnóstico específico é feito a partir da coleta de sangue no qual será verificado se há presença de anticorpos para leptospirose (exame indireto) ou a presença da bactéria (exame direto).
Prevenção
As medidas de prevenção e controle devem ser direcionadas às condições higiênico-sanitárias da população, às medidas corretivas sobre o meio ambiente, diminuindo sua capacidade de suporte para a instalação e proliferação de roedores.
Cuidados com a água para consumo humano. Garantia da utilização de água potável, filtrada, fervida ou clorada para consumo humano, haja vista serem comuns quebras na canalização durante as enchentes.
A lama de enchentes tem alto poder infectante e adere a móveis, paredes e chão. Recomenda-se retirar essa lama (sempre com a proteção de luvas e botas de borracha) e lavar o local, desinfetando-o a seguir com uma solução de hipoclorito de sódio a 2,5%, na seguinte proporção: para 20 litros de água, adicionar duas xícaras de chá (400mL) de hipoclorito de sódio a 2,5%. Aplicar essa solução nos locais contaminados com lama, deixando agir por 15 minutos.
Evitar o contato com água ou lama de enchentes e impedir que crianças nadem ou brinquem nessas águas. Pessoas que trabalham na limpeza de lama, entulhos e desentupimento de esgoto devem usar botas e luvas de borracha (ou sacos plásticos duplos amarrados nas mãos e nos pés).
Para o controle dos roedores, recomenda-se acondicionamento e destino adequado do lixo, armazenamento apropriado de alimentos, desinfecção e vedação de caixas d’água, vedação de frestas e aberturas em portas e paredes, etc. O uso de raticidas (desratização) deve ser feito por técnicos devidamente capacitados.