Pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) da USP avaliaram 665 pacientes por até 11 meses após a alta hospitalar
Covid-19 pode afetar o funcionamento de diversos órgãos além dos pulmões. Registros mostram que o vírus do sars-cov-2 pode causar disfunção nos rins, coração, sistema nervoso e fígado (Freepik)
Uma parte dos infectados pelo vírus da covid-19 teve algum grau de lesão renal durante a hospitalização, no entanto, ainda são escassas as evidências sobre o impacto da doença em longo prazo na saúde dos rins. No maior estudo do tipo na América Latina, pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) da USP avaliaram 665 pacientes por até 11 meses após a alta hospitalar. Os resultados, publicados na revista Kidney International Reports, indicam que um, em cada quatro destes sobreviventes, apresenta a chamada disfunção renal tardia.
A classificação é um desfecho, usando dois critérios relacionados à Taxa de Filtração Glomerular Estimada, a TFGe, que calcula a função renal a partir do nível de creatinina no sangue. O primeiro critério considera os casos em que houve redução igual ou superior a 25% na TFGe em relação ao momento da alta hospitalar, o que significaria uma piora da função renal. O segundo, avalia se a taxa ficou abaixo de 60 ml/min/1,73 m². Respectivamente, 16% e 27% dos pacientes apresentaram essas alterações.
A amostra engloba participantes hospitalizados com quadros moderados a graves durante a primeira onda da covid-19, entre março e agosto de 2020. Muitos deles relataram desconfortos urinários persistentes, como urina espumosa ou avermelhada e idas frequentes ao banheiro, inclusive durante a noite. Eles foram convidados a retornar ao Hospital das Clínicas (HC) pelo menos três meses após a alta, para uma bateria de exames que avaliou o funcionamento de múltiplos órgãos, incluindo os rins. A média de idade do grupo era de 56 anos, sendo homens a maioria (54%). Mais de 40% apresentava obesidade e 7,5% já conviviam com algum problema renal prévio que não a doença renal crônica.
Embora reconheça tratar-se de “uma amostra mais crítica de sobreviventes da covid-19”, com pacientes que tiveram uma forma mais severa da doença, o pesquisador Heitor S. Ribeiro destaca que os resultados acendem um outro alerta. “Uma pessoa que sobrevive à hospitalização crítica, como no caso da covid-19, e desenvolve disfunção renal tardia, passa a precisar de mais acompanhamento no sistema de saúde”, explica ele, que é primeiro autor do artigo, ao Jornal da USP. O diagnóstico acompanha, por exemplo, maior carga medicamentosa, mudanças no estilo de vida e consultas mais frequentes com nefrologistas, cardiologistas ou endocrinologistas.
O impacto é direto na rotina: “Esse paciente pode ficar anêmico, cansado, fadigado, indisposto. Também são comuns distúrbios do sono.
A qualidade de vida cai, e essas pessoas se sentem menos dispostas para as atividades do dia a dia”, ressalta. Ainda assim, a equipe ficou relutante em classificar os sintomas como doença renal crônica. Segundo o pesquisador da FMUSP, para afirmar que se trata de uma doença renal, os sintomas têm que perdurar por três meses, o que não foi possível monitorar nesta análise — mas que será feito posteriormente.
“O rim é um dos órgãos mais vitais, com comunicação cruzada com o coração, o cérebro, os músculos e o pâncreas. Quando o rim sobrecarrega e entra em disfunção, outros órgãos normalmente ou já foram ou vão ser afetados”, diz o pesquisador Heitor S. Ribeiro. (Jornal da USP)