Publicado 14 de Setembro de 2021 - 17h47

Por Chef Manuel Alves Filho

Frangos sendo assados na calçada diante de bar do Jardim do Trevo: não sobra um

Ricardo Lima

Frangos sendo assados na calçada diante de bar do Jardim do Trevo: não sobra um

Os sinais fumaça começam a ser emitidos principalmente a partir do crepúsculo das sextas-feiras. E são eloquentes. Dão a partida para finais de semana marcados por um aroma dominante, associado a variados sabores. Por serem democráticos, podem ser identificados em todas as regiões de Campinas, do bairro bacana à periferia, passando pela área central. Estou falando das características do que podemos classificar de “churrasco urbano”, aquele produzido por bares, açougues, padarias e vendedores ambulantes à beira das calçadas desta Terra de Carlos Gomes.

O hábito de “queimar uma carninha” está arraigado aos nossos mais nobres costumes desde priscas eras. Ocorre que, num passado não tão distante, a prática ficava restrita aos quintais das casas e, quando muito, aos bares e padarias, por meio do uso das indefectíveis “televisões de cachorro”. Como o churrasco virou moda recentemente, com direito a grandes eventos e a programas de televisão dedicados exclusivamente ao tema, o número de churrasqueiras e churrasqueiros multiplicou-se e ganhou novos espaços.

Consequência natural dessa expansão, a urbe ganhou uma fragrância extra, com um toque marcadamente defumado. A partir do final da tarde de sexta-feira, é impossível dar um rolê por Campinas sem ter a fome aguçada pela névoa quase lasciva desprendida pelos mais diversos equipamentos de assar carnes. No Jardim do Trevo, por exemplo, um bar instala uma longa churrasqueira a carvão na calçada para assar dezenas de frangos, sob o olhar suplicante dos famintos.

Tem ave assada na versão tradicional, com crosta crocante e o escambau. É assar e vender, de acordo com os proprietários. Na Vila Industrial, um tradicional boteco faz o mesmo, mas a partir de uma traquitana diferente, a “churrasqueira a bafo”. Esta normalmente é usada para a cocção lenta de carnes mais firmes, como a costela bovina ou o joelho suíno. O perfume que ela exala, porém, é igualmente desconcertante. Nem mesmo o fato de a carne estar com preço estratosférico tem sido motivo para apagar o fogo de quem prepara e de quem aprecia um bom “churras” cometido às margens do meio-fio.

Tenho para mim que churrasco não é somente uma refeição. É um evento. Digo isso porque normalmente gostamos de convidar amigos e familiares para participarem desse ritual gastronômico. É fato que esses encontros continuam prejudicados por causa da necessidade de mantermos o distanciamento social como forma de nos prevenirmos contra a covid-19, mas nem mesmo essa adversidade será capaz de alterar tal conceito. Churrasco bom continuará sendo aquele que podemos compartilhar com quem amamos.

Outro pressuposto do ato de “queimar uma carninha” é que a prática tem necessariamente que ser democrática, em diferentes sentidos. Isso significa que o ritual pode e deve ser cumprido tanto por endinheirados, que podem pagar por caríssimas peças de kobe beef ou de angus, quanto por aqueles que estão desfalcados monetariamente, mas que têm como lançar mão de carnes bem mais baratas – e nem por isso menos saborosas –, como o frango e até miúdos. Aviso desde logo que o coração bovino feito na churrasqueira, por exemplo, fica divino!

Ah, sim. O churrasco também tem caráter igualitário porque pode abrigar, suprema ironia, até quem não come carne. Sim, os vegetarianos ou veganos são bem-vindos a este tipo de rega-bofe. Eles tanto podem se fartar com os acompanhamentos, como maionese, pão e salada de folhas, quanto com legumes preparados na brasa. Berinjela, pimentão, abobrinha, quiabo, brócolis, aspargo, milho, abóbora e tomate são alguns vegetais que ficam deliciosos quando enternecidos na churrasqueira. Assim como no caso do trio elétrico, apenas não participa de um bom churrasco quem saiu do combinado.

Escrito por:

Chef Manuel Alves Filho