
Entre os muitos títulos, Antônio Godoy foi campeão brasileiro e correu patrocinado pela Caloi e pela Monark, marcas icônicas de bicicletas (Mateus Medeiros/Gazeta de Piracicaba)
Os vizinhos da Vila Independência conhecem bem o senhorzinho. Cabelinhos brancos, mas com uma disposição tremenda para pedalar. Não vai longe de casa. Anda ali por aquelas quadras mesmo. Só pra não deixar alarmada a esposa, dona Iracy, que morre de medo de ver o maridão caindo um tombo.
Mas não tem perigo, não. Antônio de Godoy, que hoje completa 83 anos, é experiente no pedal. Foi ciclista profissional e virou um colecionador de medalhas e troféus nos anos 60.
O homem representou Piracicaba nos Jogos Abertos. Papou o título paulista, foi campeão brasileiro e fez parte de equipes profissionais famosas, como a Usina São João. Correu patrocinado pela Caloi e pela Monark, marcas icônicas de magrelas no passado.
E tem histórias pra contar para os quatro netos e os dois bisnetos. O time da Monark tinha como garoto-propaganda “um tal de Pelé” (risos), jogador bom de bola do Santos. É, o Antônio atleta conheceu o rei, passeou na casa dele.
A história
Antônio de Godoy nasceu na roça, em Saltinho, que pertencia a Piracicaba. Mas veio molequinho para a cidade e fez de tudo na vida. Cortou cana, foi servente de pedreiro. Um belo dia, ele ganhou uma bicicleta da irmã e se apaixonou. O rapaz ficou vidrado com o ciclismo e se inscreveu para disputar uma corrida. E foi bem demais.
O final foi engraçado. Ele liderou até o fim e, inocente, diminuiu o ritmo e acenou para comemorar a vitória. Detalhe: faltavam dez metros para a pista acabar. Ele não se tocou disso. Foi ultrapassado por um monte de gente que vinha atrás. Derrotinha amarga, mas que pelo menos o animou a seguir carreira e virar campeão.
De 1958 para frente, o homem virou um aficionado pelas corridas. No começo, por aqui, defendeu a equipe do Regatas. E foi mudando de equipe e acumulando vitórias até disputar, em 1964, provas na elite do ciclismo nacional. Foi até campeão paulista master, quando beirava os 40 anos. O homem chegou a ser homenageado na Câmara de Piracicaba há pouco mais de dez anos.
A estante da sala não mente. O acervo tem uns 300 troféus e umas 500 medalhas. Só não corre mais profissionalmente porque apareceu uma artrite. O homem achou que devia dar um tempo no pedal. Mas deixou o médico furioso. Foi aconselhado a se manter no esporte — mesmo que só para passear pelo bairro. E não preocupar a dona Iracy.