Publicado 18 de Setembro de 2021 - 8h40

Por Jorge Alves de Lima

O Tonico de Campinas faleceu no dia 16 de setembro de 1896, na cidade de Belém do Pará.

No espaço de tempo entre os dias 16 a 19 de setembro daquele ano, houve uma acirrada luta entre o Governo de São Paulo e do Pará, pelo direito de agasalhar os restos mortais do heroico filho de Campinas.

Tudo começou quando a Câmara Municipal de Campinas, em reunião extraordinária, resolveu que: para não deixar em terra estranha os despojos mortais de Carlos Gomes decidiu que se telegrafe ao Dr. Campos Salles, Presidente do Estado de São Paulo para, por seu intermédio, ser requisitado ao Presidente do Estado do Pará os restos mortais do Grande Paulista, para ser inumado em Campinas, que é o seu berço.

O Presidente de São Paulo – nome pelo qual, na época, era denominado o governador – atendendo à solicitação de Campinas, decidiu que: é veemente desejo dos campineiros que descanse para sempre na terra campineira o glorioso brasileiro que ali nasceu. Está visto que não vai neste pedido o desconhecimento do carinhoso agasalho que o Pará, generoso e patrioticamente, prestou ao nosso grande artista.

A princípio, Lauro Sodré, governador do Pará, ficou muito surpreso e relutante, pois nessa altura, já tinha tomado todas medidas, inclusive tendo escolhido um belo túmulo para Carlos Gomes. Seu funeral seria efetuado no domingo - dia 20 - no lendário Cemitério da Soledade.

Todavia, Lauro Sodré, contrariando os sentimentos do povo paraense, de toda a classe política, e dos órgãos da imprensa, vendo o desejo justo dos paulistas de ser o solo de Campinas o local sagrado para ser agasalhado o seu filho mais ilustre, concordou com o traslado.

Via de consequência, Lauro Sodré solicitou a Campos Salles que pedisse ao Presidente da República Dr. Prudente de Moraes um vaso de guerra para transportar os despojos mortais de Carlos Gomes.

Mas, numa incrível inabilidade política e, até por não dizer, humanitária, Campos Salles pediu a Lauro Sodré que despachasse o corpo de Carlos Gomes no primeiro navio mercante que saísse de Belém ao Porto de Santos!

A notícia espalhou-se pela cidade de Belém. A população revoltou-se, e a imprensa e a classe política criticaram violentamente a atitude do Presidente de São Paulo. O argumento central, forte e contundente, usado por eles foi este: Como colocar e despachar os despojos sagrados de Carlos Gomes num navio mercante, como se fosse uma mercadoria?

Um artigo incendiou a ira dos paraenses, de autoria do jornalista Licínio Silva – o Faísca, seu pseudônimo – grande amigo e admirador de Carlos Gomes, que o acompanhou no seu leito de dor, até o suspiro final.

Licínio Silva publicou o seu artigo no jornal a “A Província do Pará”, aqui transcrito na íntegra:

BRUMAS

Ainda estão quentes os seus despojos, divino artista Carlos Gomes da minha terra, e já pedem que as sagradas relíquias que ficaram do teu incomparável talento sejam daqui levadas como vão as mercadorias que enchem os porões escuros das embarcações mercantes, despachadas nas estações aduaneiras, com flagrante infração das leis da dignidade e do civismo.

Tamanha barbaridade foi pedida pelo Presidente de São Paulo!

Não, não! Assim não irás Carlos Gomes! O povo paraense tem os seus direitos e não pode, decentemente, sair dessa alternativa: ou o ataúde de Carlos Gomes parte de uma maneira condigna, ou não vai daqui. Carlos Gomes, tu pertences hoje à generosa gente que desfilou diante do teu cadáver, lavado de lágrimas; ela saberá impedir a monstruosa vergonha que a terra do teu nascimento quer fazer.

Que fique conosco o corpo querido do herói, que permaneçam aqui os sacratíssimos despojos, como, durante tanto tempo, iluminou Belém o glorioso espírito do divino poeta da música.

Daqui não irá o féretro como vão os dos deserdados da sorte. Carlos Gomes, grande e luminoso, só pode dormir o sono eterno em terra que seja tão grande como ele foi: a Amazônia.

Lauro Sodré, prudentemente, reviu a sua posição e telegrafou ao Dr. Campos Salles afirmando-lhe, com todas as letras, que os despojos sagrados de Carlos Gomes só sairiam de Belém em navio especialmente fretado pelo governo paraense.

Nessa altura, o Presidente da República Prudente de Moraes, sensibilizado com a situação dramática, contratou o navio mercante Itaipu, convertido em transporte de guerra da Marinha Brasileira, comandada pelo capitão de fragata Cândido Floriano Barreto. O navio partiu no dia 26 de dezembro de 1896 do Rio de Janeiro, para ir buscar o corpo de Carlos Gomes e levá-lo até o porto de Santos.

A polêmica havida entre o Pará e São Paulo, pertinente ao traslado dos restos mortais de Carlos Gomes, foi, pela imprensa paulistana e campineira, propositadamente ignorada, para esconder o gesto deselegante e de descaso com o que o então governador Campos Salles geriu a questão: ...despache o corpo de Carlos Gomes no primeiro navio de transporte de cargas…

Por aí vemos, distintos leitores e leitoras do Correio Popular, que, graças à atuação firme do governo, da imprensa e da população do Pará, o corpo do maior gênio musical do continente americano não foi transportado para Santos, num porão infecto e escuro como reles mercadoria comercial.

A foto que ilustra a matéria é de autoria do fotógrafo Felipe Fidanza, clicada em 1882, quando da sua primeira visita a Belém do Pará.

Nos próximos artigos, vamos comentar o regresso definitivo de Carlos Gomes ao solo sagrado de Campinas.

Escrito por:

Jorge Alves de Lima