Publicado 19 de Setembro de 2021 - 9h08

Por Antônio Contente

É fácil perceber, nos espaços abertos como este que tenho à minha frente com as águas do Delta do Rio Amazonas se mostrando infinitas, que as chuvas, quase sempre, percorrem os mesmos caminhos. Na posição em que estou elas vêm do leste, lado em que nasce o sol e se alonga o grande mar oceano. Percebo, sentado no jirau da choupana, que, muitas vezes, os aguaceiros estão a cair lá longe, porém não chegam sobre mim. Outras, mesmo não chegando, rescendem o divino aroma do pampeiro que, muito mais do que simples cheiros, exalam significados.

Nesta área, as pouquíssimas pessoas que vivem nas ilhas vizinhas sabem tudo dos aguaceiros. No Açaizal São Miguel, por exemplo, mora um curandeiro que tem nome no papel, na certidão, Odair. Isso, todavia, ninguém sabe, pois todos o conhecem apenas como Mestre Nhanhakú. Vale contar que, ainda no século passado, me apareceu, de repente, um incômodo no joelho esquerdo. Começou com dorzinha pequena, quando eu me movimentava. A mínima, contudo, aumentou de tal forma que procurei um famoso ortopedista aí de Campinas. Já no primeiro exame em seu consultório resplendente de sofisticação, me foram feitas mais de 30 chapas de raios-X da região afetada. Iniciei o tratamento com remédios e fisioterapias, e seria injusto se dissesse que a dor não diminuiu: diminuiu sim, só que não me permitiu atirar no lixo a bengala. Com medo de ficar sem poder andar direito para sempre, resolvi pegar avião em Viracopos no rumo de Belém para vir a esta ilha que amo para dela me despedir. Já instalado no tugúrio, ao me ver andar com certa dificuldade, seu Pluéricles, o caseiro, perguntou o que estava ocorrendo. Expliquei, com a dimensão possível ao seu entendimento. Imediatamente, o bom homem gemeu:

– Acho que quem pode resolver esse seu caso é o pajé Odair Nhanhakú.

– E onde está esse ser maravilhoso? – Indaguei.

– Ali – ele apontou no rumo das águas.

No outro dia, a bordo de uma boa canoa com vela, lá fomos nós em busca do homem que, pelo menos na opinião do caseiro, poderia aliviar meu sofrimento.

Bom, amigos, assim foi que chegamos a uma palhoça quase debruçada sobre pequena praia absolutamente encantadora. E a barraca, apesar do aspecto de taba de índio, não dispensava certas coisas da civilização. O fogão era a lenha, é verdade, mas também contava com um a botijão de gás. N’outro canto, vistosa geladeira movida a querosene. E o próprio, digamos, morubixaba, era um homem forte, alto, de olhar sereno e sorriso franco. No que começamos a conversar, sentados um diante do outro, ele me disse:

– Eu sei onde está sua dor.

– Sabe?

Ao invés de responder, se curvou sobre mim e, colocando a mão direita no meu joelho conflagrado, soprou um “é aqui”.

Bom, amigos, a partir daí fiz o tratamento que mestre Odair Nhanhakú indicou: três ou quatro chás de folhas da floresta, e massagens, no lugar afetado, com óleos extraídos de troncos e sementes. À noite, antes de dormir, passava no joelho uma espécie de pomada feita de plantas maceradas e envolvia a parte dolorida num pano grosso. O resumo da ópera foi que, em coisa de uma semana as dores tinham quase sumido. Mais sete dias, já me encontrava em condições de caminhar de Campinas a Joaquim Egídio. Isso ocorreu faz mais de trinta anos. Desde então, necas de pitibiribas de dor.

Sim, mas eu falava de chuvas e foi o mesmo mestre Nhanhakú que me fez saber, apenas pelo visual à distância, a diferença de uma nuvem que trará água forte, fraca, garoa ou apenas vento; quando não calmaria. E hoje, se percebo que algo poderá mudar no tempo, corro para perscrutar o céu. Nunca errei, desde o papo com o pajé, as previsões meteorológicas.

Agora, aqui na Amazônia Profunda, faz Verão, ou seja, a estação em que chove menos. Ontem, após um mergulho na prainha de areia bege, o caseiro veio me perguntar se eu desejava algo.

– Desejo sim – respondi – quero fazer uma visita ao pajé Odair Nhanhakú.

– Está sentindo dor naquele joelho? – Ele arregalou os olhos.

– Não – respondi – faz trinta anos que, graças ao curandeiro, nunca mais senti nada. Queria apenas vê-lo. Ele já deve estar chegando aos oitenta anos.

– De fato. Só que não mora mais ali perto. Pouco depois que o amigo esteve aqui a última vez, seu Odair Nhanhakú mudou para a Ilha do Marajó, seis horas de viagem baía acima.

– Mas por que? – Indaguei – O que foi que houve? Ele adorava sua casinha lá na beira da praia.

– É que – seu Pluéricles acertou a voz – ele mudou pra lá porque casou com uma fazendeira, viúva riquíssima com milhares de cabeças de gado e búfalos.

– Puxa – cocei a ponta do nariz – foi algum caso de amor à primeira vista?

– Bom, isso não sei – Pluéricles sorriu – o que sei é que dona Fernanda, a fazendeira milionária, veio consultar com ele por causa de umas dores terríveis que sentia na coluna. E foi curada.

– Puxa, que bom – exclamei.

– Pois é – o caseiro termina – e como a senhora cheia do dinheiro ficou com medo que os remédios acabassem, levou também o médico, pois só ele os sabe fazer...

Escrito por:

Antônio Contente