Publicado 12 de Dezembro de 2020 - 11h10

Sérgio Caponi é escritor, engenheiro, presidente da Academia Campineira de Letras e Artes (ACLA) e Membro da Academia Campinense de Letras (ACL)

Cedoc/RAC

Sérgio Caponi é escritor, engenheiro, presidente da Academia Campineira de Letras e Artes (ACLA) e Membro da Academia Campinense de Letras (ACL)

Li com atenção o magistral artigo do meu velho amigo velho, Rubem Costa.

Rubão, se me permitem, já com 101, indo pra 102 anos e mais, sabe do que escreve.

Quando se chega a essa idade, certamente, muita coisa se esclarece, pois o horizonte outrora risonho já não sorri com os mesmos dentes e a verdade se sobressai como um sol poente a dourar a realidade como outra realidade muito mais serena e reveladora.

Não há surpresa.

É o natural de qualquer ser humano verdadeiramente humano e inteligente desencantado dos feitiços do mundo.

Rubão, ao proclamar de público sua fé em algo mais substancial que um mero arquiteto do Universo, sem qualquer especificidade moral ou espiritual, dá cunho teológico a um dos mais longevos jornalismos de que se tem notícia.

Por outro lado, enche-me os olhos ver confrades das duas academias a que pertenço publicando no Correio Popular coisas desse quilate, mesmo que tal proliferação de cronistas acadêmicos me esteja impondo uma desconfortável fila de espera de mês à porta da redação.

Não importa...Todos têm muito a contribuir.

Mas Rubão, ao tratar de ateísmo, de teologia e de existencialismo de raiz, surpreende e nos descortina o tacho do modernismo de última hora onde a hipnótica e invisível colher de Satanás remexe continuamente o caldo das heresias, das apostasias e do ateísmo barato de gosto popular.

Isso mesmo: escrevi Satanás, o conselheiro “inexistente, inofensivo e insuspeito”, cujo rabo peludo e mal cheiroso já calejou o olfato e a visão de muita gente boa.

Mas que outra explicação se encontra para a alucinada submissão de alguns ao materialismo, ao marxismo e às sociedades secretas mais abomináveis?

Será que Mateus 6:24, que trata desses duplos contratos de trabalho, foi abolido do livro sagrado?

Quanta ingenuidade e obscurantismo!

Quanta soberba e má fé!

Quanta abominação onde a abominação não deveria estar!

Vejo com tristeza a cultura e a teologia milenar judaico cristã, base moral e espiritual da civilização ocidental, se conspurcar de sociologismo e de corporativismo travestido de ecologia e fraternidade universal (que, amiúde, não é nem uma nem outra coisa).

Só não acrescento satanismo para não melindrar sensibilidades, mas colocar Deus pra escanteio e criar substituto(s) inconsistente(s), outra coisa não pode ser.

A soberba dos comedores do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal fala por si!

Aliás, essa história é mais velha do que andar pra frente...

Não me surpreendem a proliferação das profanações, queimas e depredações de igrejas, como essas dezesseis do Chile que os especialistas em queimadas florestais se negam a veicular nas TVs comerciais.

Se fosse fogo no serrado, não sairia das manchetes. Mas em igrejas...

Aliás fogo, profanações e depredações estão virando moda em todo o mundo.

Notre Dame com Michelle Obama dando, no exato momento, (vide youtube), festa em barco no Sena com plaquinha “Burning” no pescoço que o diga, caso não nos enganem as aparências e coincidências.

Há, sim, e é evidente, desde a revolução francesa, uma campanha anticristã em andamento.

Não foi Bolsonaro que a inventou pra fazer média na ONU.

Ninguém, que conheça História e o poder do dinheiro, duvida disso?

Se duvida é porque nunca leu filósofos enciclopedistas, existencialistas, positivistas e particularmente os marxistas como Hegel, Marx, Antônio Negri e Gramsci com suas diabólicas dialéticas demolidoras.

Se isso não for satanismo, o que é?

O satanismo, como a dialética, muita vez está mais no que não propõe, do que no que propõe.

Não raro, a dialética destrói até a si mesma só para ver no que dá.

É como estricnina para o suicida que aposta nos vermes como força transformadora.

A verdade é que católicos de carteirinha como eu ficam extremamente desconfortáveis diante da paranoia modernista em andamento desde o século 16.

Tudo pela razão: nada sem a razão!

Aliás, padres e bispos marxistas, ou coisa pior, são, mesmo, constrangedores.

Mas Deus não cabe nesse figurino.

A razão humana é como cachorro atrás do próprio rabo em frenéticos rodopios.

Se não o fosse, o paraíso terrestre já estaria pronto e não teríamos essa insatisfação existencial exposta pelo Rubão.

Penso que o velho Francisco, lá no Vaticano, enfrente o mesmo dilema.

Afinal, se papa, não deixa de ser de carne e osso, pelo que conciliar o velho catecismo católico, a tradição e a doutrina de dois mil anos com a lógica mundana e o pragmatismo do C.E.V.II pode estar muito além de suas forças, já que, ao que parece, o modernismo aparenta a maior das tentações.

Satanás é moderno, sedutor e lógico!

Ilógico é morrer na cruz para salvar a Humanidade.

Então compadre: salva a tua alma!

Sérgio Caponi é escritor, engenheiro, presidente da Academia Campineira de Letras e Artes (ACLA) e Membro da Academia Campinense de Letras (ACL)