Empresários de Piracicaba estão preocupados com a tarifa extra de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros. Mesmo com mais itens isentos, o tarifaço ainda afeta setores estratégicos e pode impactar o forte parque industrial metalmecânico da região

Paulo Estevam Camargo (Simespi), Maurício Benato (Acipi) e Rafael Cervone Netto (Ciesp) (Divulgação)
Os empresários de Piracicaba manifestam grande preocupação diante da decisão do governo dos Estados Unidos de impor tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, medida que passa a vigorar no próximo dia 22.
A direção do Simespi (Sindicato Patronal das Indústrias do Setor Metalmecânico de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras) afirma que, embora a ampliação da lista de produtos isentos represente avanço em relação ao cenário inicialmente anunciado, o novo tarifaço ainda afeta segmentos estratégicos da indústria nacional e poderá trazer reflexos importantes para o parque industrial da região — um dos principais polos brasileiros de máquinas, equipamentos, componentes e bens de capital.
O presidente da entidade, Paulo Estevam Camargo, destaca que diversas empresas da base sindical mantêm relações comerciais com o mercado norte‑americano ou integram cadeias globais de fornecimento, o que amplia os efeitos da medida. Ele ressalta que os impactos poderão atingir fabricantes que fornecem máquinas, equipamentos, peças e serviços para o setor sucroenergético.
“Nossa região concentra empresas altamente especializadas no atendimento às usinas de açúcar e etanol. Qualquer redução na competitividade do etanol brasileiro ou retração dos investimentos nesse segmento reflete diretamente sobre a indústria metalmecânica, que fornece tecnologia, equipamentos e soluções para toda essa cadeia produtiva”, observa.
Na avaliação do sindicato, a prioridade deve ser a busca de solução negociada entre os dois países. “O caminho mais eficiente é o diálogo. Entendemos que o governo brasileiro deve intensificar as negociações diplomáticas e comerciais para ampliar a lista de produtos contemplados pelas exceções e preservar a competitividade da indústria nacional. Essa é uma agenda que interessa às empresas, aos trabalhadores e à economia brasileira”, afirma Camargo.
O Simespi também avalia que medidas de reciprocidade comercial não representam, neste momento, a alternativa mais adequada. “A escalada de medidas retaliatórias tende a aumentar a insegurança nas relações comerciais, elevar custos e dificultar ainda mais o ambiente de negócios. O Brasil deve priorizar a negociação técnica, baseada em argumentos econômicos, buscando preservar mercados construídos ao longo de décadas e reduzir os impactos sobre os setores produtivos”, acrescenta.
Segundo o presidente, o momento exige serenidade e atuação coordenada entre governo federal, setor produtivo e entidades representativas da indústria.
Acipi alerta para margens e empregos
A Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba) acompanha com atenção a decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar tarifa adicional sobre ampla gama de produtos brasileiros. Segundo a entidade, trata‑se de medida de grande alcance, baseada na Seção 301 da legislação comercial americana, que incide sobre segmentos relevantes da indústria e dos bens manufaturados, com potencial de afetar significativamente a competitividade das exportações nacionais.
Embora parte importante da pauta exportadora brasileira tenha sido preservada — como carne bovina, café, suco de laranja, petróleo e aeronaves — a inclusão de itens como máquinas, equipamentos, bens de capital, calçados e produtos industriais processados acende sinal de alerta, especialmente para regiões com forte vocação produtiva e industrial, como Piracicaba.
Diante desse cenário, a Acipi reforça a importância de o governo brasileiro manter e intensificar os canais de negociação diplomática com os Estados Unidos, buscando soluções equilibradas para preservar a competitividade das empresas nacionais e minimizar efeitos adversos sobre a economia.
A entidade informa que seguirá acompanhando os desdobramentos da medida e seus impactos sobre o setor produtivo local, reafirmando seu compromisso de atuar como voz ativa na defesa dos interesses empresariais de Piracicaba.
A Acipi também ressalta que o município e seu entorno concentram empresas inseridas em cadeias produtivas diretamente impactadas por esse tipo de sobretaxa, seja pela exportação direta, seja pela integração em sistemas industriais mais amplos. O encarecimento dos produtos brasileiros no mercado americano tende a reduzir competitividade, pressionar margens, afetar contratos e, em última instância, gerar reflexos no nível de atividade econômica, investimentos e empregos.
“Outro ponto de preocupação é a possibilidade de sobreposição de medidas tarifárias. A combinação da nova tarifa de 25% com outras já existentes, como aquelas aplicadas aos setores de aço e alumínio, que chegam a 50%, ou ainda com eventuais novas cobranças em discussão, pode ampliar ainda mais os impactos sobre o comércio bilateral”, cita o presidente Mauricio Benato.
Análise
Ciesp vê motivação política
O Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), que tem em Piracicaba sede regional, divulgou nota na qual expressa indignação e lamenta a confirmação do tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros pelo governo dos EUA.
O documento aponta forte evidência de motivação política da medida, que atinge exportações de US$ 11 bilhões da indústria e do agronegócio e é prejudicial à própria população norte‑americana, que pagará mais caro pelos bens produzidos no Brasil.
“As alegações para a imposição das tarifas referem‑se a problemas que não são exclusivos do Brasil, como pirataria e desmatamento ilegal. São fatores presentes em numerosos países, que seguem isentos de barreiras comerciais adicionais. Também parece ter tom mais retórico do que concreto a alegação sobre o PIX, sistema de pagamento moderno, eficaz e que, em termos práticos, não afeta o comércio internacional”, informa a nota.
“As novas tarifas, que posicionam o Brasil como um dos países com barreiras comerciais mais severas nos Estados Unidos, afetam muito nossa competitividade num dos maiores mercados globais, pois numerosas outras nações não têm restrições semelhantes e ganharão espaço no vácuo deixado por nossos produtos”, avalia Rafael Cervone Netto, presidente do Ciesp e primeiro vice da Fiesp.
O Ciesp defende que o governo brasileiro busque reverter a situação com esforço diplomático. Para Cervone, não se deve optar pela radicalização ou discursos inflamados pelo calendário eleitoral. “Polêmicas não ajudam na construção de soluções técnicas e justas”, afirma.