Medida focará o sabor, a maciez e a suculência do alimento
Quarta-feira, 2 de maio de 2018 Se os eletrodomésticos possuem um selo que informa sua classe de potência e a eficiência energética, enquanto que os leites são classificados em diferentes categorias conforme o processo de higiene durante a ordenha (A, B, C ou UHT), por que as carnes também não podem ter um indicador de sua qualidade? Baseado neste desafio, e na observação de que os frigoríficos do Brasil ainda classificam seus produtos “de maneira muito empírica”, o empresário Marcelo Coutinho desenvolve um certificado de qualidade da carne bovina para o consumidor. O veterinário é o diretor e pesquisador à frente da 'Brasil Beef Quality', “startup” residente na 'EsalqTec Incubadora Tecnológica', responsável pelo projeto que pretende trazer benefícios a empresas do Agronegócio e ao consumidor final. O vindouro indicador de qualidade de carne bovina será estampado nas embalagens dos diferentes tipos de cortes, conta Coutinho. “Esse selo vai informar os níveis de sabor, maciez e suculência da carne”, comenta. O desenvolvimento do negócio está embasado na inovação, na Ciência e na realização de testes sensoriais junto a consumidores de carne. Desde o final do ano passado, mais de mil pessoas já passaram por baterias de teste experimentando e avaliando diferentes amostras de carne bovina (com variações de idade, tipo de confinamento, raça e outras). E todos os dados coletados nestes testes sensoriais serão lançados em um software. “O programa de computador vai compilar toda essa experiência sensorial de consumidores em relação aos diferentes tipos carne e suas características. Depois de pronto, esse software será licenciado para os frigoríficos classificarem seus produtos. Toda vez que ele usar o software para classificar um animal, vai me pagar um determinado valor”, explicou Coutinho. “É uma iniciativa pioneira, que não existe no Brasil. E usamos a metodologia científica para fazer isso, usamos a estatística e o processamento de informações/dados”, comentou o empresário. Popularmente, se diz por aí que “no Brasil a carne é tipo kinder ovo, ou seja, cada dia é uma surpresa”, frisou Coutinho. “Num dia está macia, cheirosa e saborosa e no outro está mais dura, com cheiro ruim e sem sabor. Então, a gente quer minimizar isso para o consumidor saber o que está realmente comprando”, observou. “No Brasil, ainda não existe uma classificação de carne. Algumas marcas de carne até falam ‘a minha é melhor’, ‘é premium’, mas mesmo nesses casos existe uma grande variação de qualidade. Hoje em dia, tudo é feito de maneira muito empírica e superficial”, garantiu. Versão 'demo' deve sair em um ano O projeto da 'Brazil Beef Quality' foi iniciado há menos de dois anos. Nasceu pré-incubado na 'EsalqTec' e depois foi aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - numa primeira fase, já recebeu R$ 200 mil para desenvolver ações para identificar sua viabilidade tecnológica e comercial. “Agora estamos buscando investidores e pleiteando mais uma rodada de investimento da Fapesp, equivalente a R$ 1 milhão”, contou Coutinho. A expectativa do empresário é ter uma versão “demo” do software (que será licenciado a frigoríficos) finalizada em um ano. O projeto, ele disse, vai trazer benefícios para três frentes: ao consumidor, que saberá as características daquela peça de carne em relação ao sabor, maciez e suculência; à Indústria Frigorífica, que poderá agregar valor em todos os seus cortes de carne, não importa se é um colchão duro ou uma picanha; e agregando valor ao produto, o frigorífico terá maior margem de lucro e, assim, poderá bonificar o produtor de gado. O negócio pretende fazer valer ditado “não existe carne de segunda se o animal é de primeira”. “Acontece que, por enquanto, o consumidor não sabe disso, ele só acha que carne boa é picanha, filé mignon ou alcatra”, listou.