INTERNACIONAL

Os ofícios 'invisíveis' e cruciais em sociedades confinadas pela COVID-19

Em Bérgamo, Bruxelas, Paris, Alcorcón, ou Berlim, enfermeiras, garis, entregadores e caixas - entre outros ofícios com frequência desprestigiados ou mesmo menosprezados no dia a dia - continuam trabalhando, expostos ao risco de contraírem a COVID-19, pelo bem-estar da população em geral

AFP
01/04/2020 às 14:06.
Atualizado em 31/03/2022 às 05:10

Em Bérgamo, Bruxelas, Paris, Alcorcón, ou Berlim, enfermeiras, garis, entregadores e caixas - entre outros ofícios com frequência desprestigiados ou mesmo menosprezados no dia a dia - continuam trabalhando, expostos ao risco de contraírem a COVID-19, pelo bem-estar da população em geral.

Trata-se de um verdadeiro exército de "invisíveis", sem os quais os países europeus que decretaram o confinamento da população ficariam paralisados.

A AFP divulga o testemunho de alguns desses trabalhadores em cinco países da Europa. Conheça suas histórias:

A enfermeira Ester Piccinini, de 27 anos, vive em Albino, uma localidade perto de Bérgamo, no norte da Itália. Trabalha no Hospital Humanitas Gavazzeni de Bérgamo, uma das cidades mais atingidas pelo novo coronavírus.

Há um mês, sua vida se viu transformada.

Antes da pandemia, era coordenadora da ala dos "pacientes privados", onde ficavam os que estão à espera de cirurgia. Desde 1o de março, a ala está dedicada ao coronavírus. É lá que são mantidos os pacientes mais graves, que precisam de ajuda respiratória antes de serem transferidos para a unidade de cuidados intensivos.

"Hoje, temos 44 pacientes com COVID-19 (...) Meu trabalho mudou completamente", afirma.

Para trabalhar, deve usar trajes especiais e máscaras. Casada, sem filhos, ganha entre 1.400 e 1.500 euros por mês.

"Não vejo mais meus pais, porque não quero me arriscar a infectá-los. Pela manhã, quando chego ao trabalho, faço o sinal da cruz esperando que tudo corra bem. Não faço por mim. Não me preocupo comigo, porque estou protegida. Mas espero que os pacientes fiquem bem", comenta.

"Quando um paciente é transferido para os cuidados intensivos, significa que sua situação é crítica. Tentamos tranquilizá-los. Uma carícia vale mais do que mil palavras", acredita.

Ana Belén, de 46, é caixa em um supermercado de Alcorcón, a 13 quilômetros de Madri.

Na Espanha, segundo país mais afetado pela pandemia (depois da Itália), "as caixas tomaram consciência do risco de contágio, mas os clientes... Depende", afirma Ana Belén, nesta função há 26 anos.

"Não se pode comparar as caixas com o pessoal de saúde, mas digamos que não temos de todo o mundo a consciência real de que temos que nos proteger, uns aos outros. Tem cliente que ainda vem ao supermercado todos os dias (...)", lamenta esta delegada para a prevenção do sindicato Comissões Operárias (CCOO, na sigla em espanhol), na região de Madri, a mais afetada da Espanha.

"A recomendação agora é falar o mínimo possível. Há clientes que são conscientes da situação, outros que também nos dirigem palavras de ânimo", completa.

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