INTERNACIONAL

Neutralidade de carbono? Atenção às letras miúdas

Diante da emergência climática, países, cidades e empresas têm se comprometido com a via da neutralidade de carbono

AFP
09/12/2020 às 06:19.
Atualizado em 24/03/2022 às 03:54

Diante da emergência climática, países, cidades e empresas têm se comprometido com a via da neutralidade de carbono. Mas é preciso atentar para as letras miúdas, alertam especialistas.

Mais de 110 países - responsáveis por 65% das emissões mundiais de CO2 - se comprometeram a alcançar a neutralidade de carbono até 2050, segundo as Nações Unidas. Entre eles estão grandes emissores, como Reino Unido, Japão e Coreia do Sul.

A União Europeia e o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, querem seguir pelo mesmo caminho. A China, que é responsável por um quarto das emissões de gases de efeito estufa do mundo, estabeleceu o prazo limite de 2060 para neutralizar suas emissões.

"Cada país, cidade, instituição financeira e empresa deveria adotar planos para chegar a zero emissões líquidas até 2050", pediu recentemente o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Mas do que estamos falando exatamente?

A neutralidade de carbono significa que um país não deve emitir mais gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, do que os que for capaz de absorver através de, por exemplo, plantio de árvores ou tecnologias para capturar CO2 diretamente da atmosfera.

Mas isto permitirá limitar o aquecimento global a um nível muito abaixo de 2°C, ou inclusive 1,5°C, como previsto no Acordo de Paris, quando as temperaturas já subiram 1,2°C em comparação com o período pré-industrial e os desastres se intensificam?

"O diabo mora nos detalhes", adverte Kelly Levin, do World Resources Institute, que explica que pelo menos quatro fatores entram em jogo para assegurar a seriedade destes compromissos.

O primeiro é se se tratam de emissões de todos os gases de efeito estufa ou apenas de CO2. Este último é responsável por mais de três quartos do aquecimento global, mas as concentrações de metano - principalmente devido a vazamentos e à pecuária - estão aumentando.

A Nova Zelândia, por exemplo, optou por reter apenas o CO2 na ambição de ser neutra em carbono até 2050, enquanto um terço das suas emissões de metano provêm da pecuária.

Também é preciso ver as etapas. "Comprometer-se a reduzir as emissões até 2050 não significa necessariamente que vão agir a partir de agora para conter o aquecimento a 1,5°C", diz Teresa Anderson, da ActionAid International.

O Reino Unido, que sediará uma cúpula virtual sobre o clima em 12 de dezembro, se comprometeu em reduzir suas emissões em 68% até 2030 (em comparação com níveis de 1990), algo que poucos países fizeram até agora.

No entanto, os cientistas são unânimes quanto à necessidade de se reduzir drasticamente as emissões de gases-estufa produzidas pelos humanos a curto prazo.

Segundo o painel de climatologistas da ONU, o IPCC, esta redução deve alcançar 45% até 2030 e 100% até 2050 para que os termômetros não passem de 1,5°C.

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