Demência

Hábitos saudáveis melhoram cognição de idosos em 55%

Dieta, exercícios, socialização: estudo latino-americano aponta melhora de 55% na cognição geral dos idosos participantes

Da Redação
14/07/2026 às 08:33.
Atualizado em 14/07/2026 às 08:33

Ao invés do foco nos exercícios de memória, o treino cognitivo atualmente é mais voltado à melhora da velocidade com que a pessoa processa informações e toma decisões (Freepik/Magnific)

O aumento da expectativa de vida tem ampliado a incidência de demência e outros problemas cognitivos, mas envelhecer não significa, inevitavelmente, perder capacidades mentais de forma acentuada. Estudos internacionais já mostravam que intervenções estruturadas no estilo de vida - envolvendo alimentação, atividade física, treino cognitivo e controle de fatores de risco cardiovascular - podem melhorar a saúde do cérebro. Agora, uma pesquisa inédita realizada ao longo de dois anos com mais de mil idosos de 11 países latino-americanos adaptou essas intervenções às realidades locais e alcançou um resultado expressivo: uma melhora de 55% na cognição global dos participantes.

O estudo comparou dois grupos: um que recebeu apenas orientações gerais sobre saúde e outro que participou de intervenções supervisionadas. A cognição global, que reúne memória episódica, função executiva e velocidade de processamento, apresentou avanços significativos em todos esses domínios. Os pesquisadores já esperavam impacto maior do que o observado em estudos conduzidos na Finlândia e nos Estados Unidos, devido ao maior risco cardiovascular, à alta prevalência de diabetes e à menor escolaridade entre os latino-americanos. Mesmo assim, os resultados surpreenderam. Para Claudia Suemoto, professora da Faculdade de Medicina da USP, o efeito reforça que populações mais vulneráveis podem se beneficiar ainda mais de intervenções multidimensionais.

A adaptação cultural foi essencial. A dieta Mind, inspirada na mediterrânea, precisou ser ajustada à realidade latino-americana, substituindo itens caros ou pouco acessíveis, como frutas vermelhas, por alternativas locais com propriedades semelhantes, como açaí e melão. O azeite, insubstituível em termos de proteção cerebral, foi mantido como recomendação, mas com orientações para reduzir frituras e ampliar o consumo de gorduras saudáveis presentes em peixes, abacate e sementes.

O treino cognitivo também exigiu ajustes. O programa Brain HQ, usado em estudos internacionais, demandou sessões extras para ensinar participantes a usar wi-fi, computadores e celulares. No Brasil, a preferência foi pelo celular, o que exigiu monitoria contínua. As pesquisadoras destacam que, em estudos futuros, será importante oferecer modalidades variadas de treino para ampliar a adesão.

As atividades físicas, realizadas ao menos quatro vezes por semana, incluíram exercícios aeróbicos e resistidos, além de práticas culturalmente fortes na região, como salsa, tango e zumba. A convivência semanal entre pessoas da mesma faixa etária gerou, espontaneamente, mais interação social — um fator reconhecido como protetor contra declínio cognitivo. No Brasil, os encontros se estendiam para conversas e cafés após as atividades.

Os pesquisadores evitam falar em “prevenção” da demência, preferindo o termo “redução de risco”, já que não é possível eliminar totalmente a possibilidade de desenvolvimento da doença. Ainda assim, o impacto das intervenções é robusto. O estudo também demonstrou que é possível implementar programas complexos em países de média e baixa renda, articulando equipes, dados e metodologias em larga escala. Foram mais de 5 mil variáveis coletadas, e novos resultados ainda serão analisados.

Para os autores, o Latam-Fingers - como foi batizado — representa mais do que evidências científicas: é prova de que a América Latina tem capacidade de liderar pesquisas de ponta em saúde pública. O editorial da mesma edição da revista The Lancet reforça que intervenções não farmacológicas precisam considerar contextos culturais e que excluir regiões onde a demência cresce mais rapidamente é desperdício científico. O estudo mostra que o Sul Global não é apenas um local de futura carga da doença, mas também uma fonte de liderança científica.

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