CONSULTÓRIO DE RUA

Estudo traça perfil do morador de rua de Piracicaba

O fator principal que os empurraram à condição foi a desavença familiar

Da Redação
13/02/2017 às 10:32.
Atualizado em 28/04/2022 às 03:52
Em dois meses, o Consultório de Rua cadastrou 120 pessoas em situação de rua  (Antonio Trivelin)

Em dois meses, o Consultório de Rua cadastrou 120 pessoas em situação de rua (Antonio Trivelin)

Segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017 Trabalho com moradores em condições de rua de Piracicaba – desenvolvido pelo Departamento de Atenção Básica (DAB), em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semdes) e a Coordenação de Saúde Mental, por intermédio do programa Consultório na Rua –, identificou que a justificativa desse público por ter optado pela sobrevivência precária na rua difere da média nacional. Para 56% dos que passaram pela triagem do consultório, o fator principal que os empurraram para essa condição foi a desavença familiar; outros 14,1% alegaram vontade própria e 18,3% apontaram a relação com entorpecentes. O desemprego foi a justificativa para 9,1%. No Brasil, 35,5% apontam o alcoolismo e o uso de drogas como fatores de precarização. Outros 29,8% responsabilizaram o desemprego e 29,1% falam em desavença familiar. A fonte consultada é a Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, Meta/MDS, 2008. No entanto, em Piracicaba, 87% deles fazem uso de alguma droga, sendo que a substância mais consumida é o álcool (66,6%). Apenas 9% fazem uso de todas as drogas que têm acesso. Depoimentos Na manhã da última quinta-feira (90, a equipe do Consultório na Rua, coordenada pelo enfermeiro Andre Perez, esteve na praça da Igreja Imaculada Conceição, no bairro Vila Rezende, e abordou dois moradores de rua. L.G., de 34 anos de idade, estava com uma ferida na perna esquerda e recebeu atendimento imediato da auxiliar de Enfermagem, Rosa Maria de Campos. Enquanto a cuidadora da Saúde Mental, Ianca Raiane Ramos de Araújo, preenchia o cadastro de L.P., 33 anos de idade. Os dois jovens vivem na região e trabalham como flanelinha. O relato de L.G. sintetiza a realidade desse público. Há seis anos vive em condição de rua devido a desavenças familiares. Brigou com o irmão adotivo e, para evitar um confronto mais duro, resolveu deixar sua casa. Dependente químico e alcoólatra assumido, disse que a decisão foi também para não prejudicar a família, que vivia desestabilizada por não saber como lidar com o seu estilo de vida. “Decidi ir embora para não matar meu irmão”, confessa. Sua família é do bairro Algodoal e ele foi criado pela avó. Guarda mágoas profundas do irmão e da mãe. “Não volto mais para casa. Vivo do serviço de flanelinha, tomo banho na torneira da praça, durmo lá pra baixo e compro marmitex mais barato nos restaurantes da região. Cada um me ajuda um pouco, porque não cobro ninguém pelo meu serviço, e assim continuo”. Questionado se gostou do serviço que recebeu da equipe, disse que achou o trabalho “legal”. “Legal mesmo. Sempre que eu precisar, vou usar esse serviço. Porque eu sigo o conselho dos enfermeiros”, garantiu. Para o médico Luis Fernando Barbosa, coordenador da Atenção Básica e especialista em saúde da família, não há divergência nas pesquisas, mas relação entre dois fatores que se alimentam mutuamente. “Pelo lado da família, quando ela já está desestruturada, pesa a conduta problemática daquele ex-integrante decorrente da dependência de substâncias psicoativas. Os pais, por exemplo, passam a não aceitar mais o filho porque ele se tornou agressivo e com uma conduta imprópria decorrente da droga. Então, preferem que ele vá embora para evitar maiores danos. Por outro lado, há o ponto de vista do morador de rua, que preferiu sair de casa porque não conseguia mais viver com seus familiares depois da desavença. Em síntese, nesses casos específicos de moradores de rua, a droga leva ao desentendimento familiar e o desentendimento leva à rua”, explicou. De acordo com Barbosa, essa inter-relação de fatores exige que as ações para tentar recuperar o dependente partam dos dois lados: da família e do dependente. “A solidariedade familiar, tentando compreender e ajudar aquele que se perdeu com o álcool e as drogas ilícitas, e a força de vontade de quem está na rua para construir uma nova relação com a família”. O médico diz ainda que o serviço público Consultório na Rua atua apenas para reduzir danos e tentar aproximar esse morador de rua da estrutura pública de Saúde, abrindo espaço para que ele queira ser ajudado, com apoio da Semdes e dos especialistas dos programas de Saúde Mental. O programa O Consultório na Rua iniciou suas atividades no dia 21 de novembro de 2016. Em dois meses de trabalho foram cadastradas 120 pessoas em situação de rua, a partir de abordagens nos locais apontados pela Semdes como sendo de maior aglomeração desta população. Passaram por atendimento 49 pessoas, em locais como praça José Bonifácio, praça da Matriz Imaculada Conceição, avenida Armando de Salles, Casa de Passagem, Praça Takaki, Terminal Rodoviário Intermunicipal (TRI), entre outros. Apenas oito do total de abordados rejeitaram o atendimento. Das pessoas atendidas, 22,5% são mulheres e 77,5% homens. A maior parte (58,3%) têm entre 30 e 49 anos de idade. Quanto à escolaridade, 15% completou o ensino médio, 36,7 tem o fundamental incompleto e 24,2% terminaram o fundamental. A maioria sofre de hipertensão e problemas respirátorios. Dos diagnosticados com problema de Saúde, 28 estão em tratamento e 64 são acompanhados pelo programa. As principais ações e orientações realizadas são sempre focadas na redução de danos, incentivando os usuários por meio da promoção de Saúde e privilegiando a prevenção de agravos relacionados à condição de vulnerabilidade. De acordo com o enfermeiro André Perez, o serviço tem ganhado força junto ao público-alvo, que, por sua vez, tem demonstrado interesse em cuidar da própria saúde.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Gazeta de Piracicaba© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por