Como a fé e a psicologia analisam a violência contra estudantes e profissionais da educação
Para Sérgio Santos, as mudanças no comportamento de uma criança ou adolescente são sutis e nem sempre gradativas (Divulgação)
Pesquisas baseadas em arquivos na imprensa e na Segurança Pública apontam crescimento da violência contra estudantes, professores e demais profissionais da educação no país. Desde 2002, são 41 mortes e mais de 70 feridos no período, aponta levantamento do Estadão Conteúdo (EC).
A sociedade aguarda respostas rápidas do poder público, mas também soluções mais consistentes a médio e longo prazos.
“O clima na escola está tenso. Muitas notícias chegando, fake news principalmente. Hoje tivemos mais de 60% de faltas por causa disso. Nós professores estamos sempre em alerta, com medo, apreensão. Temos alunos, vários, que conhecem a bandidagem e tentam colocar medo nos outros. Esperamos que as autoridades se mexam e nos dêem amparo, suporte”, desabafou um professor da rede estadual em Piracicaba à reportagem.
Pelo menos até a última sexta-feira nenhum caso de violência em instituição de ensino foi registrado na cidade.
Dando continuidade ao debate com estudiosos sobre o assunto violência contra as escolas, a reportagem ouviu mais duas pessoas. A pastora e teóloga Márcia Célia Pereira,que é coordenadora da Pastoral Escolar e Universitária do IEP (Instituto Educacional Piracicabano da Igreja Metodista), e também o psicólogo Sérgio Santos, PhD mestre e doutor em Educação e coordenador da clínica Psychè.
Márcia tem vasta experiência com educação pois são 20 anos de ministério pastoral da Igreja Metodista e 10 anos de educação na mesma instituição.
Indagada sobre o que está levando a casos de tanta violência, ela diz que tem observado uma geração que surge, sem se importar com o outro, voltada para si e cada vez mais agressiva quanto ao que querem, e sem limites. “Além dos fatores de ordem política e econômica, onde há uma fervente busca pelo valor pelo que se tem, há, em contrapartida, a desvalorização do ser humano, uma desconsideração para com o outro, quanto mais se luta pelo fim dos preconceitos, mas vemos aflorados a raiva escondida e a necessidade de atacar para se defender”, explica a pastora.
“Tenho visto se instalando nas famílias e escolas uma empatia latente em meio aos jovens e crianças, que sobrepõe o viver no coletivo, vivem em grupos, mas individualizados, cada um no seu mundo. Também vejo a falta de limites de uma geração de pais/mães, que tem transferido o seu papel de educador, de ensinar seus filhos no caminho, desde o acordar ao deitar, falando e instruindo, delegando para escolas ou mídias sociais esse papel tão importante. Há um acúmulo de funções para os nossos educadores que não conseguem suprir, ou seja, oferecer uma educação com qualidade, com escuta ativa aos alunos, o enxergar o mais fragilizado”, disse a teóloga.
“Por fim, vivenciamos uma geração que não consegue viver as pressões da vida, ou as adversidades sofridas. Vimos um aumento de casos de crianças e adolescentes com depressões, praticando mutilações e até mesmo suicídio e, em contrapartida, crianças sem perspectiva de afetos, esquecidas à margem da sociedade, onde os valores e a sobrevivência estão firmados em ter mais e mais. O nosso país tem mostrado como podemos solucionar as diferenças, infelizmente através de insultos, violências e desmandos. Com tristeza vejo que estamos em uma sociedade que exalta a violência, incapaz de olhar com empatia e só buscam soluções quando a dor bate na porta. Perdemos a cada dia, valores tão necessários à vida”, afirmou.
Mas como agir contra isso? “No primeiro instante ficamos paralisados e impotentes como educadores. Mas, nossas ações precisam ser através da educação e centradas em resgatar os valores e os limites perdidos. Fomos criados aprendendo que o meu limite termina quando começa o do outro, assim pensamos sobre o direito de respeito para com todas as pessoas. Carecemos urgentemente investir na vida, na educação desde a casa quanto nas escolas, investir na saúde física, emocional e espiritual, a saúde integral do ser humano. Vejo como um direito dado por Deus. Buscar em família, viver uma comunicação não violenta, prevenir e combater o bullying e todo tipo de violências, incentivar a afetividade, montar grupos de pais e mães que promovam ajuda mútua, mediar os conflitos com empatia, com alteridade, envolver toda comunidade escolar em projetos voltados à promoção humana e de cuidados para a criação de Deus, e orar e confiar. A oração pode ajudar e promover paz onde o conflito que se instaurar”, aconselha a pastora.
“Diante das últimas tragédias nas escolas que temos acompanhado, e sentimos as angústias e inseguranças nas famílias, promovidas pelas mídias sociais e noticiários, causando histerias nas salas de aulas, buscamos primeiro em Deus o equilíbrio e a sabedoria para entendermos que estamos em um mundo decaído pelo pecado das injustiças, a criação geme e padece por uma redenção, e precisamos oferecer diante das dores e perdas, respostas de fé e esperança, que encontramos somente em Deus. Ele é a fonte de amor e dele vem a paz, que mesmo em meio aos conflitos, conseguimos prosseguir para um propósito maior. Que Deus nos dê sabedoria e graça para reconstruirmos uma sociedade com famílias mais fraternas e solidárias”, declarou a teóloga.
O medo
No entendimento do psicólogo Sérgio Santos não podemos perder de vista que o aumento de tais acontecimentos nas escolas ocorre após um período cultural marcado pela prevalência do medo. “E o medo, tal como dito pelo personagem Coringa (Joker), é a chave para o caos. Aquilo que chamamos de pandemia foi, na verdade, uma sindemia: um momento de interação de diversos problemas que, em sua maioria, historicamente já assolavam as saúdes física, mental, social e espiritual da população brasileira. Se para nós adultos não foi fácil assimilar tamanha incerteza, privação de mobilidade e alterações em nossas rotinas, pense na situação de uma criança ou adolescente, que ainda não estabeleceu para si um pensamento amplo, saudável e autônomo, ter de se inventar e encontrar um lugar no mundo a partir, sobretudo, de respostas incongruentes, agressivas, violentas, mentirosas, ansiosas e manipulativas advindas frenética e verticalmente daqueles que deveriam lhes acolher e ensinar, no caso o Estado, pais e professores”, explicou ele.
Entenda-se como ferramentas para enfrentar os medos as ações de coragem, amorosidade e verdade – mesmo que essa verdade implique no crepúsculo de um mito; mesmo que essa amorosidade e coragem viessem banhadas de mal-estar e angústia, segundo explica o psicólogo. “Ainda que aparentemente frágeis e passageiros é somente diante de atos corajosos, verdadeiros e amorosos que construímos relações menos violentas e plenas de respeito a si e aos outros”, disse ele.
Sérgio Santos vê poucas ações para a saúde mental das pessoas. “É risível e de pouco interesse, pois é como se fosse obra pública subterrânea. Poucos ou ninguém a vê. Só lembram da saúde mental quando o esgoto vai para a rua ou volta para dentro das instituições. Investir em saúde mental, para muitos, reflete em poucos votos fáceis, escassos seguidores nas redes sociais e menos fiéis nas igrejas. A agressividade no contexto escolar é de longe sabida, produzida e vivenciada.
Ela se inicia, por exemplo, nos gélidos conteúdos alienados da vida e se ramifica nos covardes exercícios de poderes praticados por discentes, docentes, direção e pais que acreditam que escola é depósito de criança e lugar de milagres civilizatórios. Sem falar em Federação, Estados e Municípios que enxergam a educação como um custo ou investimento e não uma necessidade de ampliar o campo cultural a partir do qual crianças e adolescentes escolherão os elementos, valores e perspectivas que constituirão sua personalidade e as respostas para as dificuldades e sofrimentos condizentes à vida em sociedade”, explicou o psicólogo.
Talvez um caminho para a promoção da saúde mental nos ambientes escolares da atualidade, diz ele, resulte do reconhecimento de um sistema educacional em ruínas e da necessidade de vivermos de maneira digna e honrada, a partir da expressão aceitável do nosso desejo em sociedade, e do poder de assimilarmos, sem ressentimento e violência, a diversidade, o diferente a multiplicidade da vida. “Algo que nos dê não uma razão para viver, mas, a capacidade de experimentarmos em harmonia os sabores e dissabores da vida. Afinal, os modos de disciplinar os corpos e os meios para a aquisição de conhecimentos estão demasiadamente ultrapassados em uma realidade permeada por enciclopédias on-line e instrumentos de articulação de informações, tal como o Chat gpt”, explicou Sérgio Santos.
Comportamento
Uma das grandes dificuldades da sociedade é identificar, em casa ou na escola, se uma criança ou adolescente está com comportamento estranho. Para o psicólogo, as mudanças no comportamento de uma criança ou adolescente são sutis e nem sempre gradativas.
“Por isso, somente aqueles que têm com elas intimidade, cumplicidade e honestidade saberão escutar e acolher tais alterações. Por sua vez, muitas vezes a passagem da agressividade para a violência ocorre em um rompente de ira – a famosa gota d’água que faz transbordar o copo. E é aqui que o amor faz valer a sua força: através do estabelecimento ou reforçamento de limites, no tocante a reconhecer a dor e o sofrimento da criança ou adolescente e auxiliá-los a encontrar saídas, soluções não violentas, ou seja, respostas que não violem a Constituição ou um mínimo de civilidade necessária para que a vida em sociedade seja possível. Aliás, tal como dizia Chesterton (romancista inglês): louco é aquele que perde tudo, menos a razão. Sendo assim, a revolta ou suposta “revolução” de um jovem pode ter e fazer sentido, mas ela não tem o direito de atentar violentamente contra si e contra outrem”, explicou.
Sérgio Santos acrescenta, porém, que não é simples observar o comportamento das pessoas. Sempre algo pode “escapar”. “E tal como diz a canção, “de perto ninguém é normal”. Todos nós temos um “q” de estranheza ou de insanidade aos olhos dos nossos vizinhos. Nós enxergamos ou não, respeitamos ou não o outro a partir do olhar e da qualidade do nosso tempo presente com ele”.