MUITA POLÊMICA

Discussão sobre transgênicos na merenda retorna

Pais temem que a mudança afete a saúde das crianças

Sheila Vieira
sheila@rac.com.br
13/03/2017 às 10:51.
Atualizado em 28/04/2022 às 03:46

Alunos se alimentam na Escola Municipal 'Marcia Maria Otranto Jorge' (Divulgação)

Segunda-feira, 13 de março de 2017 A volta do uso de transgênicos na merenda escolar entra em discussão na Câmara de Campinas (SP). A Prefeitura quer revogar uma lei que existe desde 2001 e que proíbe o uso desses alimentos na refeição das crianças na cidade. Se a lei for derrubada pelo Legislativo, os 166,73 mil estudantes nas escolas públicas terão esses itens em 272.744 refeições diárias no Programa de Alimentação Escolar do Município, com preparos de milho e soja transgênicos, por exemplo. O Executivo alega que com a proibição faltam alimentos para refeições das crianças, pois itens à base de milho e soja saíram do cardápio e a maioria dos pratos têm esses componentes no preparo. O governo pede também que seja revisto parágrafo da Lei 11.431 de 12 de dezembro de 2002, que estabelece constar no cardápio do programa escolar a informação que aquela alimentação “não possui substâncias provenientes de organismos geneticamente modificados. Pais temem que mudança afete saúde das crianças Pais se mostraram temerosos com a ideia do uso de transgênicos na refeição escolar dos filhos. Por outro lado, especialistas em alimentos disseram que apesar de ainda gerarem polêmica, os alimentos geneticamente modificados apresentam atualmente um nível maior de segurança, o que não havia quando começaram a ser lançados no mercado. Os transgênicos ainda dividem opiniões, sobretudo pelos efeitos que podem causar no organismo a longo prazo. Responsável pela coordenação da nutrição do Programa de Alimentação, que operacionaliza as refeições para o setor da Educação, a nutricionista Maria Helena Antonicelli, não vê razão para a proibição do uso de derivados de milho e soja transgênica no preparo da merenda de alunos. Além do fato de ser praticamente impossível encontrar milho que não seja derivado de semente geneticamente modificada, mesmo no cultivo orgânico, outro fator é o apoio para o uso pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que se manifestou favorável. Segundo Maria Helena, esses produtos já fazem parte da base alimentar da sociedade. “As crianças consomem transgênicos em casa o tempo todo. Por que não podem consumi-los durante as quatro horas que permanecem nas escolas?”. Alimento modificado e seus impactos ainda são analisados Para o docente de Bioquímica de Alimentos, Juliano Lemos Bicas, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o uso de transgênicos gera mais temor quanto aos efeitos para o meio ambiente do que para o risco na alimentação. “Hoje em dia, a segurança desses alimentos é mais comprovada. Estou mais tranquilizado quanto ao uso”, afirma o docente da FEA. No entanto, a resistência na aceitação ainda é comum na população, principalmente, por ser algo relativamente novo - com menos de 50 anos de descoberta -, desconhecido para a maioria das pessoas e, por isso, ainda gera informações desencontradas. No aspecto ambiental, o impacto gerado a longo prazo, o que só poderá ser atestado futuramente a partir de evidências científicas, apesar das pesquisas e teorias levantadas agora, é o cerne da discussão, avalia Bicas. “Nada é isento de risco. Por exemplo, existe a preocupação em relação à resistência que o consumo possa gerar em micro-organismo contra antibióticos, mas é um risco considerado baixo. O que precisamos ponderar é se os benefícios superam os riscos. Por enquanto, os transgênicos têm se mostrado interessantes para a agricultura por baratear custos, elevar a eficiência e escala produtiva das lavouras”, explicou. O que se sabe, ao certo, é que está havendo uma adaptação tanto do campo quanto do homem aos transgênicos e as conclusões surgirão no futuro. Proibição exclui do cardápio das escolas milho e soja A proibição levou à substituição de itens do cardápio à base de milho e soja transgênica. A falta de fornecedores que atendessem às exigências das licitações municipais fez desaparecer dos estoques da Prefeitura fubá, flocos de milho, óleo de soja, amido de milho e as bebidas de soja para crianças com intolerância à lactose. Há mais de cinco anos, a rede municipal deixou de servir bolo de fubá, cuscuz, manjar, polenta, leite com flocos de milho e farofa. “Procuramos substitutos, por exemplo, o bolo de fubá por chocolate ou laranja, óleo de soja pelo girassol. Mas não tem como fazer manjar sem amido de milho, muito menos a polenta com carne moída, que é o prato mais pedido pelos alunos e que não podemos preparar”, disse a coordenadora Maria Helena Antonicelli, que comanda o cardápio da merenda nas escolas.

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