A demora na liberação de projetos e cobrança de taxas freiam investimentos da construção civil em Piracicaba, afetando empregos. Prefeitura Municipal afirma ter criado grupo para agilizar processos e reforça diálogo com o setor

Piracicaba registrou em maio desaceleração na geração de empregos formais na construção civil (Divulgação)
A retração da oferta de empregos na construção civil em Piracicaba tem causas que vão além da conjuntura econômica nacional. Empreendedores do setor afirmam que a demora na aprovação de projetos pela Prefeitura e o peso das contrapartidas exigidas pelo poder público desestimulam investimentos. Com isso, não é raro que construtoras optem por empreendimentos em cidades vizinhas, onde os procedimentos são mais ágeis e menos onerosos.
Segundo Ricardo Delazaro, presidente da Associação das Construtoras de Piracicaba (Ascopi), as reclamações são constantes. “Em cidades como São Paulo, a aprovação de um projeto leva seis meses. Em Piracicaba, chega a dois anos”, disse à Gazeta.
As contrapartidas também são apontadas como fator de inviabilidade. Delazaro afirma que o setor é obrigado a arcar com taxas e investimentos que comprometem seriamente o orçamento dos empreendimentos. “A Ascopi já se manifestou oficialmente junto à Prefeitura, e aguardamos um entendimento que possa agilizar o setor”, afirmou.
Ele cita exemplos de construtoras que migraram projetos para cidades como Americana e Limeira, onde a aprovação é mais rápida e as contrapartidas são negociadas com maior flexibilidade. “Quando uma construtora leva um empreendimento para fora, fecham-se vagas de emprego aqui”, reforça.
Burocracia
Para Mateus Bastos, gerente regional de Desenvolvimento Imobiliário da MRV, o ambiente de aprovação de projetos em Piracicaba reduz o interesse das empresas em investir na cidade.
“Se a empresa não consegue prever quando terá um alvará ou qual será o custo final das exigências, ela naturalmente prioriza cidades com mais segurança jurídica e previsibilidade”, afirma.
Como consequência, diversos projetos acabam postergados ou não avançam. Bastos explica que a empresa reduziu a expectativa de novos lançamentos no município. “Toda a cadeia da construção civil é prejudicada — fornecedores, prestadores de serviço e, especialmente, o segmento de habitação popular”, diz. “Qualquer aumento relevante de custo compromete a viabilidade econômica do produto.”
Estatística
Empregos reduzidos
Piracicaba registrou em maio desaceleração na geração de empregos formais na construção civil. A retração acompanhou tendência observada pelo SindusCon em seis das onze diretorias regionais do Estado, onde demissões superaram contratações.
A Regional Campinas — que inclui Piracicaba — teve o maior recuo, com fechamento de 1.362 postos no mês. Ainda assim, mantém um dos maiores estoques de trabalhadores da construção no Estado, com 101,7 mil vínculos formais e crescimento acumulado de 2,7% no ano.
O levantamento, realizado em parceria com o FGV/Ibre, mostra que todas as regionais acumulam crescimento do emprego em 2026, somando mais de 841 mil trabalhadores com carteira assinada.
Entre os resultados positivos, Sorocaba liderou o saldo do mês, com abertura de 809 vagas e estoque de 100,6 mil trabalhadores, acumulando alta de 6% no ano. Santos também se destacou, com saldo de 405 empregos e crescimento de 7,1% em 2026.
Na capital paulista, o setor manteve estabilidade, com saldo de 119 vagas e estoque de 374 mil trabalhadores. Ribeirão Preto e São José do Rio Preto também fecharam maio estáveis, ambas com saldo positivo de duas vagas.
Agilização
Prefeitura cria grupo técnico
A Prefeitura informa que implantou um grupo técnico intersetorial que reúne semanalmente representantes de todas as secretarias envolvidas na análise de empreendimentos, permitindo solução mais rápida e integrada de pendências. Segundo a administração, empreendimentos verticais têm apresentado tempo médio de análise entre 120 e 180 dias.
No caso de loteamentos, o prazo total não depende apenas da Prefeitura, mas também de órgãos estaduais e concessionárias, como a de energia.
Sobre as contrapartidas, a administração afirma que são exigidas por todas as prefeituras, como instrumento para garantir que o crescimento urbano seja acompanhado por investimentos em infraestrutura e serviços públicos.
Em nota, a Prefeitura reforça que permanece aberta ao diálogo com o setor da construção civil e mantém o compromisso de aperfeiçoar procedimentos, reduzir prazos e proporcionar ambiente mais favorável à implantação de novos empreendimentos.