Caminhos cruzados

Adolescentes vivem a final da Espanha com esperança no título

Como a trajetória de dois adolescentes de países distintos acabou se encontrando no mesmo sonho de ganhar a Copa do Mundo

André Luís Cia - Exclusivo de Barcelona para a Gazeta
19/07/2026 às 14:38.
Atualizado em 19/07/2026 às 14:43
Junto da irmã Clara e da mãe, Andreia Alemar, Nicolas torce pela vitória da Espanha e hoje usará o uniforme vermelho (Divulgação)

Junto da irmã Clara e da mãe, Andreia Alemar, Nicolas torce pela vitória da Espanha e hoje usará o uniforme vermelho (Divulgação)

Pablo e Nicolas são adolescentes e não viveram a emoção de ver a Espanha ser campeã do mundo em 2010, na África do Sul. Hoje, porém, terão a oportunidade de soltar o grito de campeões e festejar pelas ruas espanholas caso a seleção vença a Argentina. Ambos vivem na Catalunha. Nicolas nasceu no Brasil, tem dupla nacionalidade e mora no país desde os cinco anos. Pablo nasceu em Barcelona. Eles não se conhecem, mas compartilham a paixão pelo esporte e vivem essa final com grande expectativa.

Daqui a quatro anos, em 2030, poderão ver a Espanha lutar pelo título em casa, já que o país, ao lado de Marrocos e Portugal, será anfitrião do Mundial, enquanto Argentina, Paraguai e Uruguai sediarão apenas três jogos em homenagem ao centenário da Copa.

Nascido em Minas Gerais, Nicolas tem 14 anos e chegou à Espanha em 2017 acompanhado da mãe, Andreia Alemar. Ela acreditava que o filho, portador de síndrome de Down, teria melhores condições de desenvolvimento no país, referência internacional em inclusão e atendimento especializado. Mãe solteira, sem apoio no Brasil, enfrentava dificuldades para garantir qualidade de vida aos filhos. Além de Nicolas, ela tem Clara, de um relacionamento anterior, que vivia com o pai em Minas.

Ao decidir mudar de país, Andreia pediu demissão do emprego em uma concessionária onde trabalhava havia seis anos. Como Clara estava no ensino médio, decidiram que ela terminaria os estudos no Brasil, enquanto Andreia se mudaria sozinha com Nicolas. “Mesmo com muito medo do novo e do inesperado, tínhamos tomado a decisão, e foi a mais acertada que fiz na minha vida. Em março de 2017 chegávamos à Espanha para nossa nova vida. Era um recomeço literalmente do zero.”

Logo que chegou, ela matriculou Nicolas em uma escola especial, onde ele se adaptou muito bem. O garoto fez amigos, gostava das atividades, e sua única dificuldade inicial foi enfrentar o rigoroso inverno europeu. Clara os visitava nas férias. Na época, estudava na Universidade Federal de Ouro Preto e, após um ano, decidiu também se mudar para a Espanha. Conseguiu vaga na Universidade Autônoma de Barcelona, onde concluiu engenharia informática.

Andreia ressalta que escolheu a Espanha por buscar melhor qualidade de vida ao filho, já que o país é reconhecido internacionalmente pelo acolhimento, inclusão social e defesa dos direitos das pessoas com síndrome de Down (Trissomia 21). Esse reconhecimento se deve a um sistema de apoio pioneiro, forte amparo familiar e conquistas históricas recentes.

Sobre adaptação cultural, ela afirma que o que mais valoriza é poder viver bem com um salário comum. No Brasil, mesmo ganhando acima da média, mal conseguia pagar as despesas. Por isso, é profundamente grata ao país que a acolheu há dez anos e que deu nova identidade à família. Hoje, os três são espanhóis.

Na Copa de 2026, Andreia torceu muito pelo Brasil e se lamentou com a eliminação precoce diante da Noruega, mas também acompanhou de perto a campanha da Espanha, sua segunda pátria. “É o país em que vivo, que deu os melhores anos da minha vida, que nos acolheu muito bem. Quero muito festejar este título aqui na Espanha e ficarei muito feliz de ver tudo isso de perto.”

Confiante, ela projeta o cenário perfeito: Espanha campeã contra a Argentina em 2026 e Brasil campeão em 2030, na Copa sediada em território espanhol. “Minhas duas pátrias estarão felizes.”

Nicolas também se mostrou empolgado com o Mundial. Nos jogos do Brasil, vestia a camisa amarela e previa goleadas. Nos jogos da Espanha, trocava o uniforme canarinho pelas cores da La Roja. Ele acredita que a seleção será campeã e afirma que hoje usará o uniforme vermelho “porque será o de campeão”.

Torcida

A emoção do primeiro mundial

Aos 15 anos, o jovem Pablo Salcedo Casamada também está ansioso para soltar o grito de campeão do mundo. Apaixonado por futebol, ele conta que sempre teve interesse em saber detalhes do primeiro título espanhol, em 2010, na África do Sul. Para ele, aquela seleção — assim como a de 2026 — era competitiva e bem treinada por Del Bosque. “Nossa estreia não foi boa, porque perdemos para a Suíça, mas a equipe deu a volta por cima. Eliminamos Portugal, Paraguai e Alemanha e enfrentamos a Holanda na final. Vencemos com um gol de Iniesta aos 117 minutos da prorrogação”, relembra.

Pablo afirma que ver a Espanha ser campeã depois de 16 anos é maravilhoso e que o futebol tem o poder de unir o país em torno de um objetivo comum. “Para nós, jovens que não tivemos a oportunidade de viver isso antes, é ainda mais especial.”

Sobre o legado de um Mundial, ele diz que depende de cada nação, mas que, para a Espanha, com forte cultura futebolística, é a chance de mostrar talento ao mundo e conquistar algo grandioso como país. “É algo maravilhoso e único.”

Sobre a Copa de 2030, Pablo diz que gostaria de assistir ao menos a uma partida e que, se pudesse ser voluntário ou trabalhar em algum projeto relacionado, aproveitaria a oportunidade. “Sou muito fã de tudo que envolve futebol. Jogo futsal e acompanho também o futebol de campo. Entre meus ídolos, não poderia deixar de citar Messi, que é adversário da Espanha nesta final, mas sou grato a tudo que ele fez pelo Barcelona. Também gosto muito do Pedri, que considero subestimado, mas é um grande jogador.”

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Gazeta de Piracicaba© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por