Chapuzón

Puerto Williams: o mergulho comunitário no verdadeiro fim do mundo

Criado por moradores na Ilha Navarino, no extremo sul da Patagônia chilena, mergulho de inverno mantém a organização voluntária enquanto atrai visitantes à cidade mais austral do planeta

Erick Tedesco
25/07/2026 às 12:56.
Atualizado em 25/07/2026 às 13:38

Locais e turistas mergulham nas águas do Canal de Beagle com sensação térmica de zero grau célsius (Divulgação)

Às 12h de domingo, 26 de julho, moradores e visitantes de Puerto Williams, cidade chilena localizada na Ilha Navarino, no extremo sul da Patagônia, deixarão a faixa costeira ao lado do Muelle Prat, cais da orla urbana, e entrarão juntos nas águas geladas do Canal Beagle. Nesse trecho, a passagem marítima separa o Chile da Terra do Fogo argentina.

O chapuzón, mergulho, em espanhol, dura poucos minutos. Antes da entrada, os participantes fazem um aquecimento coletivo. Na saída, a primeira providência é retirar a roupa molhada e procurar abrigo nas tendas aquecidas.

“Assim que os participantes saem da água, nós os esperamos com chocolate quente e montamos tendas com calefação a gás para que possam se trocar e retirar a roupa molhada”, explica José Luis Paredes Soto, conselheiro regional pela Província Antártica Chilena, divisão administrativa cuja capital é Puerto Williams, e um dos organizadores do Chapuzón Más Austral del Mundo, em entrevista exclusiva à reportagem.

A nona edição ocorre em Cabo de Hornos, comuna chilena equivalente a um município e formada por Puerto Williams e outros territórios austrais. A comuna possui 1.750 habitantes, conforme o Censo 2024 do Chile. Os patrocinadores trabalham com a expectativa de reunir 400 banhistas. Se alcançado, o número corresponderá a quase 23% da população local, embora parte dos participantes venha de outras regiões chilenas e do exterior.

arte do público desta edição chegou à Ilha Navarino a bordo do ferry Kawéskar (Divulgação)

 A cidade ocupa a costa norte da Ilha Navarino, ao sul do Canal Beagle e abaixo de Ushuaia, cidade argentina que historicamente utiliza o título de mais austral do mundo. Puerto Williams está mais ao sul. Fundada em 1953 como Puerto Luisa, ao redor de um núcleo naval chileno, recebeu o nome atual em 1956. Em 2019, o Instituto Nacional de Estatísticas do Chile passou a classificá-la oficialmente como cidade, consolidando a reivindicação geográfica que sustenta o “fim do mundo” do título.

A posição no mapa, porém, não explica sozinha o encontro diante do cais. O Chapuzón nasceu com uma finalidade muito mais próxima.

“A intenção inicial da nossa atividade era proporcionar um momento de alegria aos nossos vizinhos de Puerto Williams. Com o passar dos anos, porém, a realização do evento durante o inverno começou também a contribuir com a economia local, porque nesse período a cidade vive a baixa temporada turística e tem um movimento mais lento”, conta Paredes.

O aquecimento coletivo antecede a largada (Divulgação)

 Da Villa Ukika ao Muelle Prat

A primeira edição foi realizada em 30 de julho de 2017 na faixa costeira da Villa Ukika, área situada a cerca de dois quilômetros do centro de Puerto Williams, onde vive parte da comunidade indígena yagán.

“A ideia veio de dois moradores, Ángela Barría e Rodolfo Moncada, que sonhavam em reproduzir o Chapuzón realizado em Punta Arenas. Em 2017, em pleno inverno, eles fizeram uma convocação pelas redes sociais para que nos reuníssemos na Villa Ukika, setor da comunidade yagán, e entrássemos no Canal Beagle”, afirma Paredes.

A convocação foi feita pelas redes sociais em pleno inverno. “Havia pouca expectativa, mas muita vontade da comunidade yagán, dos patrocinadores locais e de todos os nossos vizinhos. Com voluntárias da Cruz Vermelha, chocolate quente e uma faixa improvisada, começamos a nos reunir à beira do canal”, recorda o organizador.

Moradores, voluntárias da Cruz Vermelha e empresas locais ajudaram a preparar café, chocolate quente, música e a estrutura disponível na Villa Ukika. Na margem, um cartaz improvisado identificava a atividade.

A contagem da estreia exige uma distinção entre quem compareceu e quem entrou na água. O registro da Armada do Chile, responsável pela segurança marítima, informa que aproximadamente 200 pessoas acompanharam o encontro e 60 mergulharam no Canal Beagle.

O crescimento aparece nos números seguintes. Em 2025, a oitava edição reuniu cerca de 320 banhistas, entre moradores e visitantes de diferentes partes do Chile, do Brasil, do Haiti e da Venezuela, conforme a La Prensa Austral.

“Nas edições anteriores, não recebemos apenas pessoas de diferentes partes do Chile. Também contamos com participantes da Colômbia, Venezuela, Haiti, Brasil e Estados Unidos”, acrescenta Paredes.

“Com o passar dos anos, a atividade se consolidou como a única em âmbito regional nascida da organização dos próprios vizinhos. Com o apoio permanente dos patrocinadores, passamos a oferecer não apenas o chocolate quente, mas também kits com camisetas e diferentes lembranças para quem decide, corajosamente, entrar no Canal Beagle”, completa.

Evento foi criado por moradores na Ilha Navarino, no extremo sul da Patagônia chilena (Divulgação)

 A origem na Villa Ukika introduz uma camada histórica anterior à criação de Puerto Williams, mas não transforma o Chapuzón em tradição indígena. O mergulho coletivo é uma atividade contemporânea, criada em 2017 e inspirada no evento de Punta Arenas.

O lugar onde ocorreu a primeira edição, no entanto, é habitado por parte do povo yagán, cuja história se formou pela navegação, pela pesca, pela coleta e pela ocupação dos canais austrais. O atual Museo Territorial Yagan Usi registra a presença dessa cultura no extremo sul do Chile e da Argentina há cerca de 7 mil anos.

Reinaugurado em 2024, o museu deixou de se chamar Museo Antropológico Martín Gusinde e passou a adotar o nome Museo Territorial Yagan Usi - Martín González Calderón. A exposição relaciona objetos arqueológicos e registros históricos à presença contemporânea da comunidade, em vez de restringir o povo yagán ao passado, conforme o Serviço Nacional do Patrimônio Cultural do Chile.

Inspiração em Punta Arenas

O modelo observado por Ángela Barría e Rodolfo Moncada estava a aproximadamente 32 horas de navegação de Puerto Williams.

Em Punta Arenas, o Chapuzón del Estrecho leva milhares de pessoas às águas do Estreito de Magalhães, passagem marítima que separa o continente sul-americano da Ilha Grande da Terra do Fogo. Em junho deste ano, cerca de 7.500 participantes de 16 países, entre eles 50 brasileiros, entraram no mar, conforme mostrou a reportagem publicada no Seu Dinheiro.

A inspiração chegou à Ilha Navarino, mas assumiu outra escala. Em Punta Arenas, o Chapuzón integra as Invernadas, calendário de festas organizado pela prefeitura. Em Puerto Williams, permaneceu sob o comando dos moradores.

“A inspiração veio de Punta Arenas, mas aqui a atividade nasceu da organização de vizinhos com vontade de participar e do compromisso permanente dos patrocinadores. Acreditamos que o trabalho voluntário gera compromisso entre as pessoas que apoiam o evento”, afirma Paredes.

A Prefeitura de Cabo de Hornos não participa da organização, segundo ele. Questionado sobre a atuação municipal, o organizador responde de forma direta: “Nenhuma. A atividade nasceu da comunidade e pretendemos mantê-la assim. Os moradores já enxergam o Chapuzón como uma atividade própria.”

O evento também não recebe financiamento da prefeitura, de acordo com Paredes. A estrutura e os materiais são custeados por patrocinadores como Supermercado Temuco, Refugio El Padrino, Gasco Magallanes, a empresa de navegação TABSA e a companhia aérea DAP.

“Só contamos com patrocínios de empresas privadas, locais e regionais. Os patrocinadores locais são o Supermercado Temuco e o Refugio El Padrino; em âmbito regional, participam a Gasco Magallanes, a TABSA e a Aerovías DAP. Todos nós que apoiamos a organização somos voluntários. Não há dinheiro envolvido, apenas os kits entregues aos participantes”, explica.

O aumento do público exige ampliar tendas, áreas protegidas, segurança, transporte e materiais sem transferir a condução do evento para o poder municipal. Na apresentação da edição de 2026, os patrocinadores estabeleceram a meta de chegar a 400 banhistas e confirmaram vestiários aquecidos, zonas de abrigo e distribuição de chocolate quente, segundo a Radio Polar.

Segurança dentro e fora do canal

A ausência da prefeitura na produção não significa ausência de instituições públicas. Elas entram no esquema de segurança.

A Armada do Chile acompanha os participantes no Canal Beagle com embarcações de apoio. Os Carabineros, força policial chilena, atuam na área terrestre. O Hospital Comunitário Cristina Calderón presta suporte de saúde, enquanto a Delegação Presidencial da Província Antártica Chilena concede as autorizações necessárias para o uso da faixa costeira.

“São quatro instituições com funções diferentes. A Armada do Chile faz o resguardo e cuida da segurança das pessoas que entram no canal. Os Carabineros mantêm a ordem e a segurança em terra. O Hospital Comunitário Cristina Calderón protege a saúde dos participantes, enquanto a Delegação Presidencial da Província Antártica autoriza a realização do evento no local definido”, detalha Paredes.

O aquecimento coletivo antecede a largada. “Claro que existe uma preparação antes da entrada. Fazemos um aquecimento, geralmente conduzido por um morador ou uma moradora com experiência em condicionamento físico”, explica.

Uma das participantes da edição de 2026 é a nadadora de águas abertas Pierina Reyes. Durante a travessia entre Punta Arenas e Puerto Williams, ela recomendou corrida leve, alongamento e aquecimento antes da entrada. Para pessoas sem experiência em águas frias, orientou que a permanência não ultrapasse cinco minutos, conforme entrevista ao Diario El Pingüino.

A organização não divulgou uma medição oficial para a temperatura da água na edição de 2026. A orientação é permanecer por pouco tempo no canal e retirar a roupa molhada assim que retornar à margem.

O Chapuzón ocupa uma manhã, mas introduz o visitante em um território que pede mais tempo (Divulgação)

 32 horas até Puerto Williams

Parte do público desta edição chegou à Ilha Navarino a bordo do ferry Kawéskar. A TABSA distribuiu 75 passagens gratuitas de ida e volta entre Punta Arenas e Puerto Williams, ante 50 no ano anterior. O concurso recebeu mais de mil inscrições.

Os escolhidos vieram de diferentes comunas da Região de Magalhães, de outras áreas do Chile e também do exterior. A rota regular da TABSA leva aproximadamente 32 horas e conecta a capital regional à capital da Província Antártica Chilena por fiordes e canais austrais.

“Um aporte concreto é feito por meio da TABSA, que sorteia e oferece 75 passagens gratuitas para a viagem desde Punta Arenas. Isso permite que, em plena época de inverno, a comuna receba uma quantidade importante de visitantes, promove Puerto Williams como destino turístico e movimenta alojamentos e restaurantes locais”, afirma Paredes.

Por via aérea, a DAP mantém voos regulares entre Punta Arenas e Puerto Williams. O primeiro voo da história da companhia, realizado em 1980, já ligava as duas cidades.

A duração da travessia marítima ajuda a compreender a condição insular de Puerto Williams. A chegada de moradores, visitantes, alimentos e materiais depende das conexões por mar e pelo ar. No inverno, a redução dos percursos de montanha e as condições meteorológicas diminuem o movimento turístico.

“Puerto Williams está na baixa temporada turística nesse período, com um movimento mais lento. Por isso, o Chapuzón passou a somar esforços e a contribuir com a economia local, além de divulgar a cidade como destino turístico”, diz Paredes.

A organização não apresentou levantamento de gasto médio, ocupação hoteleira ou impacto financeiro total. O efeito comprovado desta edição começa pelos 75 passageiros transportados pela TABSA e pelas permanências em hospedagens e restaurantes relatadas pelos organizadores.

O encontro criado para os vizinhos passou, assim, a receber pessoas que atravessam durante mais de um dia os canais austrais para permanecer poucos minutos dentro da água.

A primeira edição foi realizada em 30 de julho de 2017 na faixa costeira da Villa Ukika (Divulgação)

 A cidade depois do mergulho

O Chapuzón ocupa uma manhã, mas introduz o visitante em um território que pede mais tempo. Puerto Williams funciona como base para caminhadas, travessias e percursos relacionados à história yagán, à ocupação chilena da Ilha Navarino e às disputas territoriais no Canal Beagle.

“O primeiro impacto é a oportunidade de chegar à última cidade no fim do mundo. Em seguida, o visitante encontra atrativos naturais preservados que, até hoje, são gratuitos: cascatas, lagoas e circuitos de trekking”, afirma Paredes.

Ao sul da área urbana estão os Dientes de Navarino, cadeia montanhosa de picos recortados que dá nome ao principal circuito de trekking da ilha. O percurso completo atravessa 53 quilômetros de vales, lagoas, turfeiras e passos de montanha. A travessia costuma exigir de quatro a seis dias e possui dificuldade muito alta.

Locais e turistas mergulham nas águas do Canal de Beagle com sensação térmica de zero grau célsius (Divulgação)

 Devido à instabilidade do clima, o Chile Travel recomenda realizar o circuito entre dezembro e março. O inverno do Chapuzón, portanto, não coincide com a temporada indicada para a travessia completa.

Para um percurso mais curto, o Cerro Bandera, elevação visível da cidade e primeira parte da rota dos Dientes, pode ser visitado em uma caminhada de meio dia. Paredes cita ainda a Laguna Maku, lagoa situada no interior da Ilha Navarino, e as cascatas de la Virgen, Los Bronces, Plata y Oro.

“A particularidade de Puerto Williams é que, a cada visita, você pode encontrar um novo passeio, dependendo dos seus interesses. Há circuitos de meio dia, de dois dias e o próprio Dientes de Navarino, disponível na alta temporada, com duração aproximada de cinco dias”, afirma.

A estrada costeira segue até Puerto Navarino, pequena localidade situada aproximadamente 56 quilômetros a noroeste de Puerto Williams. No caminho está Bahía Mejillones, baía da costa norte da ilha relacionada à história da comunidade yagán, além de conchais formados durante antigas ocupações humanas do litoral.

“Também é possível percorrer o caminho até Puerto Navarino, conhecer parte da história da comunidade yagán em Bahía Mejillones, observar os conchais à margem do Canal Beagle e completar a visita no museu, onde estão detalhes da cultura e da vida da nossa comunidade indígena”, recomenda Paredes.

O mesmo território conserva marcas da crise de 1978, período em que Chile e Argentina chegaram perto de uma guerra pela delimitação do Canal Beagle. “O visitante também pode conhecer os vestígios do conflito com a Argentina, o armamento da época e as trincheiras construídas para proteger os militares”, afirma Paredes. Estudos históricos registram que a tensão alterou a rotina de Puerto Williams e das demais comunidades do canal ao longo daquele ano.

No núcleo urbano, o Museo Territorial Yagan Usi reúne essas diferentes escalas de tempo. O acervo passa pela ocupação ancestral do arquipélago, pela navegação yagán, pela chegada dos europeus, pela colonização e pelas mudanças provocadas pela formação dos Estados chileno e argentino no extremo sul.

A escala da cidade também interfere na relação com quem chega. O cais, o comércio, a praça, as hospedagens e o museu estão concentrados em uma área que pode ser percorrida a pé.

“Nossa cidade é pequena, somos cerca de 2 mil habitantes, mas isso também lhe dá o encanto de um povoado, marcado pela amabilidade e pela acolhida das pessoas. Ao caminhar pelas ruas, é muito comum que os willienses cumprimentem você sem conhecê-lo. Isso cria um ambiente de confiança e segurança para quem visita”, diz Paredes.

No domingo, parte desses moradores estará novamente diante do Muelle Prat. Depois do aquecimento, os banhistas entrarão no Canal Beagle e permanecerão poucos minutos na água. Na volta, correrão para as tendas, retirarão as roupas encharcadas e procurarão a calefação. Do lado de fora, outros vizinhos estarão esperando com as canecas de chocolate quente.

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