Há dois anos, Aluizio Abranches faz um trabalho voluntário que lhe dá um novo olhar sobre a vida

Há dois anos, o cineasta carioca Aluizio Abranches iniciou um trabalho voluntário na ActionAid (organização internacional), que tem lhe proporcionado um novo olhar sobre muitos aspectos da vida, principalmente na forma como as pessoas encaram diferentes assuntos e problemas da sociedade atual. Aos 50 anos, está envolvido em um novo projeto para o cinema, desta vez, uma comédia romântica diferente de tudo aquilo que já fez. "Pela primeira vez quero fazer um filme para ganhar dinheiro. Até hoje nunca ganhei nada a não ser o prazer de contar minhas histórias, mas quero fazer algo comercial experimentar esse outro lado", confessou. Ele também confessa que está "namorando" a TV, veículo onde nunca trabalhou. "Tenho pensado muito nisso ultimamente, mas gostaria de trabalhar como autor e não como diretor. Tenho projetos de séries, minisséries e até novela". Sua estreia no cinema aconteceu, em 1999, com "Um Copo de Cólera", inspirado na novela homônima de Raduan Nassar. Três anos depois, lançou "As Três Marias". Em 2009, veio o filme mais polêmico de sua carreira: "Do começo ao fim". Apesar de ter se formado em economia foi no cinema que Abranches encontrou a motivação que buscava. "Depois de me formar fui para Londres fazer mestrado, mas mudei todo o rumo da minha vida ao entrar em uma escola de cinema". Nesta entrevista exclusiva à Gazeta de Piracicaba, Abranches falou, dentre outras coisas, da paixão pelo Rio de Janeiro. "Não consigo me concentrar como gostaria quando estou aqui (risos). Eu abro a janela do meu apartamento (mora a poucos metros da praia, no Leblon), olho para o sol e não resisto a um passeio pela orla e a um mergulho no mar, principalmente se for um convite da Julia Lemmertz (atriz e amiga com quem gravou os seus três longas)." Gazeta: O que o fez mudar totalmente de área?Abranches: Sempre fui muito precoce em tudo. Na infância queria ser médico, talvez já influenciado pela minha mãe que era médica (o pai, advogado). Aos 21 anos, mudei para a Inglaterra, mas sempre fui muito cinéfilo. Eu via todos os filmes que passavam na TV aberta até acabar a programação do dia, mas nunca havia pensado em estudar comunicação. Isso até entrar para uma escola de cinema (London International Film School). Foi uma experiência incrível com dois anos de estudo integral onde aprendi muita coisa bacana. Depois de formado não voltei ao Brasil. Decidi ficar lá. Consegui produzir algumas coisas para a TV inglesa. Um professor me disse que um dia eu seria diretor e essa profecia se cumpriu sem eu nunca ter pensado nisso como profissão. Gazeta: Como entrou para a ActionAid? De que forma as pessoas podem contribuir?Abranches: Entrei nesse projeto por influência da Julia (Lemmertz). O mais interessante é que é um programa totalmente independente, inclusive, do governo. Sobrevive somente com a ajuda de voluntários. Eles estimulam que as comunidades carentes busquem dentro delas mesmos alternativas para superarem os seus problemas sociais. A melhor forma de contribuir é "adotando" uma criança, mas é uma adoção diferente. Você não a leva para casa, mas contribui para que ela tenha uma qualidade de vida melhor. Você se torna o padrinho dela. Gazeta: Qual foi o aprendizado que o trabalho na ActionAid lhe trouxe?Abranches: Foi uma viagem de três dias que fiz com a Julia para o Recife. Nós visitamos muitas comunidades carentes. O foco do trabalho naquela região são jovens vítimas de violência sexual. Vi cenas muito tristes, de meninas com 12, 14 anos, trabalhando como prostitutas, muitas delas, já grávidas. Além de Pernambuco, estive também no Rio de Janeiro e, em São Paulo. Foram visitas que despertaram em mim um desejo grande de colaborar. O que mais me atraiu nesse projeto foi o fato deles não terem vínculo com nenhuma instituição governamental. Eles prezam por essa independência. Gazeta: No Brasil como foi sua primeira experiência como cineasta?Abranches: Assim que retornei de Londres entrei para a produção do filme Carlota Joaquina, da Carla Camuratti, mas depois de quatro meses descobri que não era aquele estilo de filme que eu queria fazer e desisti do projeto. Foi a grande decisão da minha vida. Nessa mesma época caiu literalmente em minhas mãos o livro Um Copo de Cólera. Li duas vezes seguidas e me apaixonei por aquela história. Achei o que eu buscava. Fiquei com aquilo na cabeça. Liguei para o Raduan Nassar (o autor), mas imaginava que ele nunca me atenderia. Depois de uma semana, para minha surpresa, ele me atendeu. No primeiro encontro ficamos oito horas seguidas conversando. Saí de lá com o direito de adaptar sua história para o cinema. Gazeta: Logo no seu filme de estreia você causou polêmica pelas cenas sensuais e de sexo entre os protagonistas (vividos por Alexandre Borges e Julia Lemmertz). Acredita que por eles serem um casal na vida real isso possa ter ajudado na química deles?Abranches: No livro, as cenas de sexo são descritas em poucas páginas, mas eu as considero fundamentais. Foram três meses de muito ensaio. Na hora que íamos gravar eu exigia que ficassem poucas pessoas no estúdio. Em 17 dias gravamos tudo. Não tinha imaginado nenhum ator específico para os papéis nem muito menos um casal na vida real, mas depois de ver a uma apresentação do Alexandre e da Julia atuando em Hamlet, sabia que eles eram os meus protagonistas.Gazeta: E foi fácil convencê-los?Abranches: Nós não nos conhecíamos pessoalmente. Em 1997, liguei para o Alexandre e marcamos um encontro onde apresentei a ideia, mas ficamos meses conversando. Fomos nos gostando. Nós três começamos uma relação gostosa, como um namoro, mas foi tudo gradativo. Por causa dos compromissos deles ficamos um ano e meio apenas conversando até conseguirmos fechar as datas e gravar. A Júlia foi o grande encontro pessoal e profissional da minha vida. Ela se tornou uma grande amiga, parceira de todos os meus trabalhos. Gazeta: Como foi fazer As três Marias, que é um outro tipo de linguagem e que tem uma narrativa completamente diferente do seu primeiro filme?Abranches: É um dos meus trabalhos que tenho mais orgulho de ter feito. Prefiro criar uma narrativa própria para cada filme. Gazeta: Já Do Começo ao fim causou novamente polêmica por retratar o amor entre dois irmãos. De onde veio sua inspiração para escrevê-lo e dirigi-lo?Abranches: Sempre pensei nesse filme como um amor incondicional onde não havia brechas para o preconceito. A primeira ideia veio de "Os Maias", de Eça de Queiroz. Eu li algumas vezes o livro e queria mudar o final. Desejava que ele fosse feliz. Daí pensei numa história. Foi uma frase do dramaturgo inglês George Bernard Shaw que me instigou: "Algumas pessoas olham para o mundo e perguntam por quê? Eu penso em coisas que nunca existiram e pergunto por que não?". Então, tratei esse assunto como se fosse um relacionamento normal entre qualquer casal. Não é um filme que trabalha com a culpa ou com a angustia. É algo leve, tranqüilo, que prioriza o amor e a questão afetiva independente de serem irmãos do mesmo sexo. Gazeta: Do começo ao fim tem algo biográfico?Abranches: Eu não me defino hoje como homossexual, mas, sim como alguém sexual. Tenho um relacionamento de quatro anos com outro rapaz, que também é roteirista. Já teve épocas da minha vida que fui 100% homossexual. Tem uma cena no filme onde a Julia (Julieta) pergunta a um dos filhos se ele quer lhe dizer alguma que estava acontecendo com ele e que não compreendia. Nessa mesma idade (12, 13 anos), minha mãe também me fez a mesma pergunta. Hoje compreendo que a personagem da Julia é a minha mãe. Ela também era médica e morreu. (mãe foi vítima de um acidente de carro). Gazeta: Como foi tratar essa questão tão delicada da homossexualidade e do incesto com o elenco infantil do filme?Abranches: O Lucas Cotrin era mais velho. Ele tinha uma cabeça muito boa e conversamos mais abertamente sobre o filme. Discutíamos o roteiro juntos. O Gabriel Kaufmman era menor. Eu não dei o roteiro para ele ler. Ensaiávamos suas cenas no dia da gravação. Tudo foi feito com o consentimento dos pais. Gazeta: Como você vê a questão do preconceito no Brasil?Abranches: Nunca entendi ou aceitei qualquer tipo de preconceito, seja racial, sexual ou de qualquer outro tipo. Eu só tenho preconceito contra aquilo que é ruim e que provoca mal a outras pessoas. A preferência sexual de cada um não é defeito. Cada um tem o livre arbítrio de fazer as suas próprias escolhas, por isso, não devia haver conflito. Hoje há personagens homossexuais na novela das 21h, mas me incomoda o fato deles mostrarem um casal caricato (referindo-se aos atores Marcelo Antony e Thiago Fragoso, em Amor à Vida). Por que tem que mostrar dois homossexuais delicados e afeminados? Não que eu tenha algo contra quem seja, mas por que tem que ser sempre caricato e não natural como as pessoas podem ser? Gazeta: Fale do seu novo trabalho. Por que investir numa comédia romântica, gênero inédito na sua carreira?Abranches: Eu adoro comédia, mas nunca havia feito no cinema. Quero fazer um filme de grande público e que ganhe dinheiro. Desejo saber como é fazer um filme para 3, 5 milhões de espectadores. Todos os meus filmes fizeram 100 mil espectadores. A história é sobre um casal, um cara mais velho, de 40 anos, com uma menina de 30 anos. Eles nunca se casaram e tem problemas de assumir esse relacionamento.Contra a violência sexualReduzir a exploração de meninas e mulheres jovens. Esse é o foco de um dos trabalhos desenvolvidos pela ActionAid, em Pernambuco. Hoje, são 360 meninas e jovens da periferia pobres da região metropolitana de Recife e Cabo de Santo Agostinho, ambos em Pernambuco, que estão mais conscientes dos seus direitos e preparadas contra abusos por violência e também drogas. Em uma das regiões foi criado, inclusive, um grupo de teatro para expandir o conhecimento nas escolas.Em maio de 2013, a atriz Julia Lemmertz, doadora e embaixadora da ActionAid, acompanhada do cineasta Aluizio Abranches, visitaram o Recife onde conheceram de perto o trabalho. "Perseverança", "paz", "amor" e "superação" são algumas das palavras escritas no muro do Espaço Mulher. É lá e na Igreja Católica da comunidade de Passarinho, que elas se reúnem para se organizarem e lutarem por seus direitos.Abranches registrou em vídeo a realidade das comunidades de Ibura/Jordão, Passarinho e Charnerquinha, em Cabo de Santo Agostinho.A viagem começou em Ibura/Jordão, que ocupam a 6º e a 5º posições entre os piores IDHs (Índices de Desenvolvimento Humano). Aluizio e Julia se emocionaram ao ouvir as histórias de luta e as experiências das moradoras que já sofreram assédios e que tiveram sua adolescência encurtada devido à gravidez precoce.Números importantes Em 2013, foram muitas as conquistas importantes da ActionAid, como direito à alimentação, à educação, em situações de emergência, à participação democrática e erradicação da pobreza, além dos direitos em situações de emergência.A ActionAid é uma das 30 ONGs mais competentes do mundo, segundo uma pesquisa realizada em 2007 pela ONU (Organização das Nações Unidas).O projeto tem 450 mil doadores individuais que contribuem para o trabalho ao lado de outras milhares de pessoas que ajudam de outras formas.Cerca de nove milhões de pessoas o apoiam na África, Ásia, América Latina e Caribe. O príncipe Charles é o patrono e a atriz inglesa Emma Thompson preside a rede de embaixadores. Informações: http://www.actionaid.org.brO ActionAid está nas redes sociais: www.facebook.com/actionaidbrasil; no twitter: @ActionAidBrasil; e no youtube: http://www.youtube.com/user/ActionAidnoBrasil