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A solidão também adoece o coração

Em “O cérebro precisa de amigos”, Ben Rein investiga o custo biológico do isolamento; estudos associam vínculos sociais frágeis a maior risco de doença cardíaca, AVC e morte precoce

Erick Tedesco
16/07/2026 às 10:27.
Atualizado em 16/07/2026 às 10:28

Em novo livro, neurocientista de Stanford explica que a solidão é mais letal que a obesidade (Divulgação)

Amizades raramente aparecem nas listas tradicionais de cuidados com a saúde. Nelas, há espaço para controlar o colesterol, medir a pressão arterial, dormir melhor, abandonar o cigarro e reservar alguns dias da semana para exercícios. Em O cérebro precisa de amigos: a neurociência da conexão social, recém-publicado no Brasil pela HarperCollins, o neurocientista Ben Rein propõe acrescentar outro item a essa rotina: observar a qualidade e a frequência das relações que mantemos.

A formulação pode soar como uma prescrição de bem-estar, mas o ponto de partida de Rein é fisiológico. Com pós-doutorado em Stanford e atual diretor científico da Mind Science Foundation, o autor investiga como a falta prolongada de contato social é interpretada pelo organismo como uma situação de ameaça. Seu livro procura explicar, em linguagem acessível, o que acontece no cérebro e no corpo quando a solidão deixa de ser episódica e passa a organizar a vida cotidiana.

O coração ocupa um lugar central nesse debate. Estudos observacionais associam solidão e isolamento social a maior incidência de doença coronariana, acidente vascular cerebral e morte precoce. A American Heart Association já considera que os dois fenômenos devem ser avaliados entre os fatores sociais capazes de afetar a saúde cardiovascular, embora ressalte que ainda não exista evidência suficiente para determinar quais intervenções reduzem efetivamente esse risco.

O lançamento de Rein chega em um momento no qual a solidão deixou de ser tratada apenas como experiência íntima. Um relatório da Organização Mundial da Saúde divulgado em junho de 2025 estima que uma em cada seis pessoas no mundo se sente solitária. A OMS relaciona a solidão a aproximadamente 871 mil mortes por ano e recomenda que a chamada saúde social passe a receber atenção semelhante à dedicada à saúde física e mental.

Solidão e isolamento são problemas diferentes

Uma das dificuldades para compreender o assunto está na mistura entre solidão, isolamento e o simples fato de passar algum tempo sozinho. Os conceitos não são equivalentes.

A solidão é subjetiva. Ela aparece quando existe uma distância dolorosa entre as relações que uma pessoa gostaria de manter e aquelas que efetivamente possui. Alguém pode ter colegas, família, contatos digitais e compromissos frequentes, mas ainda perceber seus vínculos como insuficientes ou pouco profundos.

O isolamento social, por sua vez, pode ser observado de maneira mais objetiva. Ele envolve poucos contatos, baixa participação em atividades coletivas e ausência de pessoas a quem recorrer diante de uma doença, dificuldade financeira ou emergência. Uma pessoa pode morar sozinha sem se sentir solitária, assim como pode dividir a casa com outras pessoas e experimentar uma profunda desconexão.

Essa distinção percorre o livro de Rein e também orienta as pesquisas sobre o tema. Quantidade, qualidade e função dos relacionamentos são dimensões diferentes. Ter centenas de contatos em uma plataforma digital não significa necessariamente contar com uma rede capaz de oferecer intimidade, pertencimento ou apoio prático.

A diferença também impede soluções simplistas. A solidão não desaparece apenas porque alguém foi colocado em uma sala cheia. Da mesma forma, morar sozinho não constitui automaticamente uma condição de risco. O problema aparece quando a desconexão é persistente, indesejada e combinada a outros fatores de vulnerabilidade.

O que realmente significa o dado de 50%

Um dos números usados por Rein para dimensionar o peso das relações sociais surgiu de uma meta-análise publicada em 2010 na revista PLOS Medicine. O estudo reuniu 148 pesquisas e dados de 308.849 participantes, acompanhados durante uma média de sete anos e meio.

Os pesquisadores concluíram que pessoas com relações sociais mais consistentes apresentavam uma probabilidade de sobrevivência 50% maior do que aquelas com vínculos mais frágeis. O efeito permaneceu relevante após a consideração de fatores como idade, sexo, estado de saúde e causa da morte.

A formulação exige cuidado. O resultado não significa, de maneira direta, que uma pessoa solitária tenha “50% mais chances de morrer”, como afirma o release de divulgação do livro. O estudo mediu o efeito agregado das relações sociais sobre a probabilidade de sobrevivência. Transformar essa medida em risco individual de morte altera o sentido estatístico da pesquisa.

Também é inadequado afirmar simplesmente que a solidão seria “mais letal que a obesidade”. Comparações desse tipo podem ajudar a chamar atenção para um fator de risco negligenciado, mas colocam lado a lado estudos com desenhos, populações e formas de medição diferentes. A evidência permite dizer que os vínculos sociais têm peso relevante na longevidade. Ela não autoriza montar uma hierarquia universal entre solidão, obesidade, tabagismo ou sedentarismo.

Outra revisão conduzida pela mesma pesquisadora, Julianne Holt-Lunstad, analisou dados de mais de 3 milhões de pessoas. A solidão esteve associada a um aumento de 26% na probabilidade de morte; o isolamento social, de 29%; e morar sozinho, de 32%. Novamente, são associações populacionais, não previsões individuais.

No campo cardiovascular, uma meta-análise com aproximadamente 181 mil participantes encontrou associação entre relações sociais frágeis e aumento de 29% no risco de doença coronariana e de 32% no risco de AVC. A American Heart Association resume o conjunto de pesquisas como suficientemente consistente para relacionar isolamento e solidão a piores desfechos cardíacos e cerebrais, mas chama atenção para as limitações dos estudos observacionais.

Como uma relação social chega ao coração

É justamente nesse intervalo entre a experiência emocional e a doença física que O cérebro precisa de amigos concentra seu argumento mais interessante. Rein parte da ideia de que o ser humano evoluiu em ambientes nos quais permanecer junto de outras pessoas significava proteção, alimento e auxílio diante de ameaças. Estar afastado do grupo representava vulnerabilidade.

No organismo contemporâneo, a separação já não significa necessariamente a proximidade de um predador ou a ausência de comida. Os circuitos biológicos, porém, não abandonaram por completo esse antigo sistema de alarme. Quando a desconexão é percebida como ameaça constante, o corpo pode permanecer em estado prolongado de vigilância.

Esse processo envolve a ativação de mecanismos relacionados ao estresse, incluindo o sistema nervoso simpático e a produção de hormônios como o cortisol. Essas respostas são úteis diante de riscos imediatos. Mantidas por longos períodos, podem contribuir para elevação da pressão arterial, alterações metabólicas, perturbações do sono e processos inflamatórios.

A American Heart Association aponta ainda possíveis efeitos sobre a função dos vasos sanguíneos, a coagulação e o controle da glicemia. Isso não significa que a solidão provoque sozinha um infarto. Significa que ela pode atuar por diferentes caminhos, somando-se a fatores genéticos, econômicos, comportamentais e clínicos.

A dimensão comportamental é inseparável da biológica. Pessoas isoladas podem ter menos estímulo para praticar exercícios, manter uma alimentação equilibrada ou procurar atendimento médico. Também podem enfrentar dificuldades para seguir tratamentos, retirar medicamentos ou chegar a uma consulta.

Uma rede de apoio exerce funções concretas. Familiares e amigos percebem mudanças no estado de saúde, insistem na busca por atendimento e ajudam durante a recuperação. Entre pacientes cardíacos, a falta desse suporte pode tornar mais difícil o controle de uma doença que exige acompanhamento permanente.

A relação também funciona no sentido contrário. Uma doença crônica pode reduzir a mobilidade, interromper atividades profissionais e afastar uma pessoa de ambientes de convivência. A solidão pode ser consequência da enfermidade e, ao mesmo tempo, agravar algumas de suas condições. Por isso, os pesquisadores evitam atribuir uma causalidade única ao problema.

O cérebro diante de outras pessoas

Rein amplia a discussão ao mostrar que uma conversa exige do cérebro muito mais do que a troca literal de palavras. Durante uma interação presencial, interpretamos expressões faciais, pausas, gestos, direção do olhar, entonação e pequenas mudanças de postura. O cérebro combina esses sinais para estimar intenções, reconhecer emoções e ajustar o próprio comportamento.

A obra argumenta que esse exercício contínuo ajuda a explicar por que a vida social se relaciona à manutenção das funções cognitivas. Conversar, acompanhar uma narrativa e responder às reações de outra pessoa mobilizam memória, atenção, linguagem e capacidade de interpretar perspectivas alheias.

O autor não apresenta a tecnologia como inimiga automática das relações. Chamadas de vídeo, mensagens e redes sociais podem preservar vínculos diante da distância, de uma doença ou de limitações físicas. O que Rein questiona é a equivalência entre contato digital e encontro presencial. Parte dos sinais utilizados pelo cérebro para compreender o outro desaparece ou perde força nas interações mediadas por telas.

A questão se torna especialmente relevante em uma rotina marcada pelo trabalho remoto, pelas compras por aplicativo, pelo entretenimento doméstico e pela substituição de conversas por mensagens breves. Cada uma dessas facilidades resolve um problema prático. Somadas, porém, elas podem reduzir os encontros casuais que antes faziam parte do dia.

O livro chama atenção justamente para essas interações aparentemente pequenas: conversar com um atendente, cumprimentar um vizinho, trocar algumas palavras durante um trajeto ou fazer uma pergunta a um desconhecido. Elas não substituem relações íntimas, mas ampliam a sensação de participar de um ambiente social.

Uma “dieta social” sem receita universal

Na parte prática de O cérebro precisa de amigos, Rein propõe que cada pessoa observe sua própria “dieta social”. A comparação com a alimentação serve para mostrar que as necessidades de convívio não são idênticas. Algumas pessoas precisam de interações mais frequentes; outras funcionam melhor com poucos encontros, desde que sejam significativos.

O autor sugere registrar como o corpo e o humor respondem depois de diferentes situações sociais. Um jantar com muitas pessoas pode ser estimulante para alguém e exaustivo para outra pessoa. Uma conversa individual pode oferecer mais sensação de proximidade do que horas em um evento cheio.

A proposta evita estabelecer um número ideal de amigos ou de compromissos semanais. Também impede que introversão seja confundida com isolamento. Pessoas introvertidas podem preferir ambientes menos intensos e ainda manter relações sólidas, satisfatórias e protetoras.

O ponto central é observar se a vida social disponível corresponde àquela que a pessoa deseja. Quando há uma distância persistente entre as duas, o desconforto pode funcionar como um sinal semelhante à fome ou à sede: uma indicação de que uma necessidade não está sendo atendida.

O risco dessa abordagem é transformar um problema coletivo em uma nova responsabilidade individual. Solidão também é produzida por jornadas extensas de trabalho, desemprego, pobreza, violência, transporte precário, cidades sem espaços públicos e ausência de políticas para idosos, migrantes e pessoas com deficiência. A OMS recomenda que o enfrentamento inclua parques, bibliotecas, atividades comunitárias, transporte acessível e integração do tema aos sistemas de saúde.

É nesse ponto que o livro de Rein ultrapassa o território convencional da autoajuda. Ao explicar os mecanismos da conexão social, ele retira a amizade do campo dos acessórios agradáveis da vida. Relações não substituem medicamentos, exercícios ou acompanhamento médico. A evidência reunida pelo autor sugere, porém, que elas fazem parte da infraestrutura biológica e social que permite ao corpo enfrentar o estresse, atravessar doenças e envelhecer.

O LIVRO

O cérebro precisa de amigos: a neurociência da conexão social
Autor: Ben Rein
Tradução: Cristina Yamagami
Editora: HarperCollins Brasil
Disponível em edições impressa e digital.

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