Os juros futuros negociados na B3 recuaram cerca de 10 pontos-base nas taxas intermediárias e longas na sessão desta sexta-feira, 2, enquanto a ponta curta chegou a ficar abaixo de 14% em alguns momentos e cedeu ao redor de 5 pontos.
Num dia de liquidez reduzida, devido ao feriado antecipado do Dia da Independência nos Estados Unidos, a queda do dólar, novos dados econômicos que reforçaram a percepção de fraqueza da atividade doméstica e, por fim, sinalizações da equipe econômica de que o Tesouro Nacional pode intervir novamente no mercado de títulos públicos abriram espaço para correções de parte da alta das últimas duas sessões.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 14,043% no ajuste de quinta para 14%. O DI para janeiro de 2029 recuou a mínima intradia de 14,25%, de 14,398%. O DI para janeiro de 2031 teve baixa de 14,51% a mínima intradia de 14,385%.
No cômputo semanal, porém, a curva a termo ganhou inclinação, movimento condizente com a volta das preocupações sobre o quadro fiscal e sobre a desidratação da candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na leitura do mercado, isso aumenta as chances de continuidade do governo atual e, consequentemente, de uma política fiscal menos austera.
Gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos avalia que o 'price action' de hoje foi mais relacionado à falta de liquidez nos negócios, que acaba amplificando as oscilações dos DIs, e à devolução da disparada de ontem, que teria sido exagerada. "É difícil tirar alguma coisa do dia de hoje [sexta-feira]. A liquidez está cerca de um quarto do normal, e ontem [quinta-feira] a curva abriu bastante", apontou.
Diante de poucos gatilhos vindos de notícias e dados, Campos destaca declarações feitas pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que deram suporte à descompressão dos DIs, sobretudo nos vértices intermediários e longos.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Ceron disse que o Tesouro Nacional está preparado para atuar no mercado caso seja necessário preservar a liquidez. Questionado sobre as elevadas taxas dos títulos públicos atrelados à inflação - as NTN-B -, o secretário afirmou que "se precisar recomprar forte, não há problema nenhum. O Tesouro está preparado".
"Isso joga na direção do mercado se preparar para uma possível intervenção de recompra, o que ajuda o humor e a fechar as taxas", disse Campos, para quem a curva de juros extraída das taxas das NTN-B estão com comportamento técnico "muito ruim". Assim, em sua opinião, uma nova intervenção do Tesouro no mercado teriam um baixo custo para o órgão e poderia aumentar sua funcionalidade.
Já Sergio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, avalia que o maior problema agora está na curva pré, e não na curva de juros real. "O problema é que o apetite por posições aplicadas em juros está baixo. Portanto, o foco deveria ser na curva pré. Antes de avaliar novos leilões de recompra, o Tesouro deveria ter ofertas de prefixados em torno de US$ 500 mil de DV01 e não de US$ 800 mil como foi ontem [quinta-feira]", observou.
Além das falas do número 2 da Fazenda, Goldenstein menciona ajustes após a pressão altista desta quinta-feira, o bom comportamento do câmbio e o resultado mais fraco da indústria como outros vetores de queda para os juros.
Publicada pelo IBGE na abertura dos negócios, a Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) mostrou que a atividade do setor recuou 0,2% entre abril e maio, feitos os ajustes sazonais, quando a expectativa do consenso de mercado era expansão de igual magnitude.
"Do ponto de vista da atividade econômica, o desempenho da PIM em maio reforça a perspectiva de que a atividade deve desacelerar de maneira mais acentuada no segundo trimestre do ano", afirmou em relatório Matheus Pizzani, economista do PicPay.
O dado praticamente não alterou, contudo, as apostas para a condução dos juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). A precificação da curva apontava, no final da tarde, 72% de chance de corte de 0,25 ponto porcentual da Selic, ante 28% de probabilidade de manutenção.