A escalada da guerra no Oriente Médio guia o petróleo Brent para o nível de US$ 100 por barril e realimenta preocupações inflacionárias, minando qualquer chance de apetite por risco. Como resultado, após três dias em queda, o dólar ganhou terreno contra o real e fechou em alta de 0,64%, a R$ 5,0839 no segmento à vista, e avança 0,47%, a R$ 5,094 no contrato futuro para agosto por volta das 17h desta quinta-feira, 23.
A avaliação de que o petróleo beneficia os termos de troca do Brasil - exportador líquido da commodity - fica em segundo plano, visto que a possibilidade de taxas de juros mais elevadas, inclusive no Federal Reserve, diminui a atratividade de moedas emergentes.
O dólar é puxado pelo DXY - índice que mede o dólar contra seis pares fortes - mais forte (+0,30% por volta das 17h), em linha com a abertura dos rendimentos dos Treasuries por conta da alta do petróleo, segundo o analista Rafael Passos, da Ajax Asset. "Com o Brent ao nível de US$ 100, volta a narrativa receosa de que o preço de energia esbarre na inflação e nos juros futuros, elevando a moeda americana e depreciando moedas emergentes."
A economista Paloma Lopes, da Valor Investimentos, enfatiza que a oscilação do dólar é reflexo da guerra do Irã, com "a oscilação do preço do barril de petróleo automaticamente esbarrando na cotação" da moeda americana, enquanto o mercado avalia que "o presidente Donald Trump não tem intenção alguma de terminar com a guerra".
O petróleo Brent fechou em alta de 7,04%, a US$ 100,69, em meio à restrição do fluxo da commodity pelo Estreito de Ormuz e com a escalada de tensões entre os houthis do Iêmen e a Arábia Saudita no Mar Vermelho, o que também aumenta a incerteza sobre o tráfego no Estreito de Bab-el-Mandeb.
O economista Vitor Kayo, da Nomad, nota que o mercado tem dado mais peso ao temor inflacionário da guerra do que ao efeito positivo do petróleo sobre os termos de troca do Brasil.
Com a possibilidade de juros elevados por mais tempo no exterior, os investidores correm para mercados considerados mais seguros, como os EUA, acrescenta Passos, da Ajax Asset. "Taxas das Treasuries mais altas indicam taxas de Fed Funds mais elevadas, o que diminui a atratividade de moedas emergentes", nota.
Ferramenta do CME Group já mostra que a expectativa de aperto monetário pelo Fed até setembro segue crescendo, tendo superado a probabilidade de 80%. Para a reunião da próxima semana, a principal aposta é de manutenção (62,1% de chance estimada).
A ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos Janet Yellen afirmou na tarde desta quinta-feira que o Fed parece estar pronto para elevar os juros. De manhã, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, já havia alertado que a alta dos preços de energia provavelmente manterá a inflação bem acima da meta até o primeiro semestre de 2027.
Há também expectativa de que o representante comercial dos EUA (USTR), Jamieson Greer, realize um anúncio sobre tarifas globais "ainda hoje", conforme sinalizado pela Casa Branca nesta tarde. O Broadcast já havia mostrado na terça-feira (21) que o governo Lula se prepara para receber uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos importados brasileiros, visto pelos EUA como relacionados ao trabalho análogo à escravidão.