"Ninguém escolhe essa profissão". Com a frase, o ex-árbitro, Flávio Guerra, relembra a carreira como homem do apito. Aposentado desde 2016, ele precisou esconder o trabalho da família no início, recebeu pressão das mais diversas torcidas, aguentou calado os xingamentos das arquibancadas contra sua mãe e viu a classe ficar manchada por conta de Edílson Pereira de Carvalho. Nenhum dos contratempos o impediu de ser realizado na carreira. Ele pôde trabalhar em jogos de ídolos, rodar o Brasil e receber premiações. Assim como a maioria dos jovens no Brasil, Flávio sonhava ser jogador. A falta de habilidade, e a necessidade de estudar e trabalhar o impediram de seguir em frente. Foi então que passou a gostar da arbitragem. Com 15 anos de idade, assistia jogos de futebol amador em Penápolis (SP), sua cidade natal, e a autoridade do árbitro chamou sua atenção. "Todo domingo, eu ia lá apitar de graça. Não contei para meus pais, que pensavam que eu ia jogar, porque senão eles não me deixariam sair de casa, mas depois acabaram aceitando bem". Após o início, Guerra fez o curso da Federação Paulista de Futebol, para começar a arbitrar pela entidade, e aos poucos construiu seu espaço no profissional. Antes disso, precisou passar pelas categorias inferiores e aprendeu a conviver com as ofensas aos familiares. "O pessoal xinga, mas é a paixão. No profissional a gente quase não consegue ouvir o que vem de fora, porque você está muito concentrado". Em 2005, quando despontava, Flávio viu a imagem dos árbitros ficar manchada pelo escândalo envolvendo Edílson Pereira de Carvalho, que foi pego em um esquema de manipulação de resultados no Brasileirão. Já criticada por não ser considerada profissional, a arbitragem brasileira passou a ser ainda mais alvo de contestação. Apesar de negativa no aspecto geral, a época foi considerada boa pelo penapolense, que recebeu mais oportunidades. "A gente tinha que mostrar no campo que uma pessoa não poderia manchar um quadro inteiro". Dentro de campo Flávio Guerra não era um árbitro que gostava de aparecer. Ele preferia que o espetáculo ficasse restrito aos atletas e que seu nome não fosse lembrado após os jogos. Em campo, não fazia diferenciação de jogadores, renomados ou não, todos recebiam o mesmo tratamento. "Apitei o último jogo do Ronaldo pelo Corinthians. Neste dia, teve um lance que ele caiu. Eu falei que não foi nada e que ele pisou na bola. Foi o suficiente para ele ficar bravo e reclamar: 'eu nunca pisei na bola, o cara me fez falta'", relembrou. Quando o assunto é atleta difícil de se apitar, outros dois nomes foram apontados. "O Valdívia porque te joga contra a torcida e tenta te enganar, e o Luís Fabiano, porque com ele não tem diálogo, qualquer coisa já te xinga". As boas atuações renderam a Guerra o prêmio de melhor árbitro do Paulistão de 2008. O momento jamais sairá de sua mente. "São Paulo tem a melhor arbitragem do País, na época tinha Paulo César, Seneme, Sálvio Spinola, todos da Fifa, e mesmo assim eu ganhar foi bem marcante". Atualmente Flávio trabalha como analista de arbitragem da CBF. Na função, assiste aos jogos através de um tablet e gera um relatório com uma nota e tudo que o árbitro em questão marcou. Dérbi foi o jogo mais difícil Nome constante em confrontos de grande magnitude no futebol paulista, como os clássicos envolvendo Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, Flávio Guerra elegeu o dérbi entre Guarani e Ponte Preta, pela semifinal do Campeonato Paulista de 2012, no estádio Brinco de Ouro da Princesa, como o jogo mais difícil em que já trabalhou. No duelo, os bugrinos levaram a melhor e venceram a Macaca por 3 a 1, com gols de Medina (2) e Fábio Bahia. Caio anotou o de honra dos pontepretanos. Guerra relembra que não esperava ser sorteado, porque o quadro de arbitragem contava com nomes mais experientes e que faziam parte da Fifa. "Eu estava há quatro anos apitando a primeira divisão, havia feito um campeonato muito bom, mas mesmo assim. Quando saiu a escala, eu já morava em Campinas, sabia que tinha condição de apitar, só que vários da imprensa não me conheciam ainda e foi muito falado que eu nunca tinha apitado um dérbi". Após ser definido como o responsável do apito para o jogo, tanto Flávio, quanto o restante do seu trio e a outra equipe que faria a semifinal entre Santos e São Paulo foram chamados para uma reunião com o então presidente da Comissão de Arbitragem da FPF, Coronel Marinho. "Ele nos chamou e disse que a grande preocupação era no jogo de Campinas por conta da tensão. Eu tinha noção dessa pressão e sabia que tinha que mostrar que conseguia, que precisava fazer o meu melhor", disse. O jogo não foi marcado por polêmicas, para comemoração de Guerra. "Recebi mais elogios do que críticas, teve uma harmonia legal na partida, as conversas foram na base da educação e o resultado foi limpo. Os pontepretanos ficaram tristes, mas praticamente nem lembram que fui eu que apitei". Dicas - Enquanto a arbitragem não é profissionalizada no Brasil, que o jovem tenha um plano B como carreira. - Tenha consciência que a vida de árbitro não é para sempre, então se planeje para isso. - O jovem não deve criar a ilusão de que a arbitragem vai garantir o sustento em sua vida. - Os pais devem cobrar os filhos para que estudem e fazer com que os filhos mantenham os pés no chão.