BASTANTE CONCENTRADO

Caio Bonfim fala sobre a carreira na marcha atlética

As mudanças na vida do atleta começaram em 2015

Alison Negrinho
03/04/2018 às 18:12.
Atualizado em 19/04/2022 às 02:52

Às margens das ruas em Sobradinho (DF), um jovem franzino caminha de maneira rápida, concentrado, alheio ao que acontece no redor. Ao seu lado, os carros passam e os motoristas, em sua maioria preconceituosos, buzinam e disparam ofensas homofóbicas, tudo isso porque para treinar a marcha atlética, é preciso rebolar. Essa foi a rotina de Caio Bonfim por muitos e muitos anos. Aos poucos, com a conquista de importantes medalhas e resultados, a imagem errada ficou para trás e o garoto que outrora precisava ouvir gritos pejorativos como "vira homem", agora recebe palavras de incentivo. As mudanças na vida de Caio começaram em 2015. Na ocasião, ele conseguiu um terceiro lugar nos Jogos Pan-Americanos de Toronto. Para um País pentacampeão mundial de futebol pode parecer pouco, mas para a história da modalidade no Brasil, foi um feito de grande dimensão. Antes de Caio, apenas Marcelo Palma em Havana-1991, havia conseguido o mesmo bronze. "Aqui nenhuma medalha tem cor, pelas dificuldades que enfrentamos. Me lembro dos canadenses marchando muito, lutei bastante. Fiquei em quarto lugar, mas o terceiro foi desqualificado", destacou. Diante da emoção da conquista, o atleta seguiu focado naquele que sempre foi seu maior objetivo: mudar a imagem do brasileiro em relação à marcha. Mais do que vencer provas, Caio sempre teve claro em sua mente a necessidade de mostrar que o Brasil não é somente futebol. A oportunidade para isso veio no ano seguinte, com a disputa da Olimpíada no Rio de Janeiro. No pelotão da frente durante toda a disputa, o brasiliense, então com 25 anos de idade, foi superado pelos chineses Zhen Wang e Zelin Cai, além do australiano Dane Bird-Smith. Ao término da disputa da prova de 20km, o público presente no Pontal vibrava por Caio. Ali veio a certeza de que seu trabalho não havia sido em vão. "Sofri muito preconceito, mas após Olimpíada tive momentos excelente. Hoje consigo marchar tranquilo, as pessoas reconhecem o esporte e isso me deixa emocionado". Referência na modalidade dentro do País, o brasileiro garantiu um bronze no Mundial deste ano, em Londres. Foram 20 quilômetros até cruzar a linha de chegada após 1h19s04 de prova, naquele que foi seu melhor tempo da carreira. A marca foi suficiente para colocar o Brasil pela primeira vez no pódio da competição. Depois de um início ruim, ele precisou de muita ginga para superar os demais concorrentes e ficar atrás somente do colombiano Eider Arévalo (1h18s53) e do russo Sergei Shirobokov (1h18s53). "Ainda não consigo entender o tamanho do meu feito. Lembro de participar de mundiais, ver o terceiro colocado e achar incrível. É assim que tento ver minha medalha, porque não consigo descrever o sentimento, foi fantástico". O reconhecimento à marcha e ao atleta cruzaram diversas fronteiras. No último mês, Caio esteve em Campinas para realizar um teste funcional no renomado Laboratório de Avaliação Cinético-Cinemática (LACC), do Instituto Wilson Mello. Na avaliação foram verificados todos os possíveis desequilíbrios musculares, padrões de movimentos e fraquezas. Por lá, com toda a atenção voltada para si, ele conseguiu mostrar, enfim, que a marcha atlética já recebe um tratamento diferente no País. Esporte no DNA Para se tornar uma potência da modalidade, Caio Bonfim precisou - e ainda precisa - de muito esforço. Apesar de não ser muito reconhecida no Brasil, a marcha atlética sempre esteve presente na vida do atleta, que é filho de Gianetti Sena Bonfim, pioneira da marcha em Brasília (DF), por volta de 1990. Fundista de origem, Gianetti é octacampeã brasileira e campeã ibero-americana. Com três títulos brasileiros a menos do que a mãe, Caio conta que não sofre com muitas comparações entre eles, a não ser quando o assunto é desempenho nos treinos. "Toda vez que alguém pergunta, eu digo que ainda estou longe do que ela fez. Ela foi uma grande atleta de treinamento, então qualquer vacilo que eu dou nos treinos, me comparam com ela e falam que ela não era assim", revelou o brasiliense. A mãe de caio começou na marcha justamente por conta do filho. Aos 29 anos de idade, ela, que era corredora, engravidou e por conta disso ficou acima do peso. Ainda assim, Gianetti queria competir, mas seu marido e treinador, João Sena, a impediu e revelou que a única vaga aberta que tinha era para a marcha atlética. "Ela não teve categoria de base, não foi preparada, já eu fui o sexto do mundo quando era jovem, cheguei a ser segundo do ranking de menores, fui quarto no Mundial juvenil, então já cheguei no adulto sendo um grande atleta", explicou Caio. Em sua rotina, Caio treina de segunda-feira a sábado, em dois períodos do dia. São em média 30 quilômetros, diariamente, somente de marcha. Há ainda pilates duas vezes na semana e em alguns períodos do ano musculação. Para ele, as grandes dificuldades são nos treinamentos. "A hora de competir eu conto os dias para chegar, é o que eu gosto de fazer. Ali é só superar os adversários?". Dicas - Os pais devem colocar o filho para praticar o esporte, mas sem pressão por resultados. - É dever da família deixar o jovem tranquilo, para que possa se divertir. - Os jovens devem explorar o que o esporte pode oferecer de disciplina, dedicação e respeito. - Para se tornar um grande atleta é preciso sempre saber ouvir os conselhos e aprimorar as técnicas. - Os pais devem incentivar seus filhos, pois em alguns momentos eles sentirão vontade de desistir.

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