
Partida da Copa reacendeu debate sobre migração alemã ao Paraguai (IA)
A vitória do Paraguai sobre a Alemanha na Copa do Mundo, nesta segunda-feira (29), colocou frente a frente duas seleções com histórias muito diferentes no futebol e também chamou atenção para uma relação recente fora dos gramados. O Paraguai eliminou os alemães nos pênaltis, por 4 a 3, após empate por 1 a 1 em 120 minutos, em Foxborough, nos Estados Unidos, e avançou às oitavas de final. Foi a primeira derrota da Alemanha em uma disputa de pênaltis em Copas, segundo a Reuters.
Fora de campo, o confronto também permite olhar para um fenômeno migratório que ganhou repercussão nos últimos anos: a chegada de alemães ao Paraguai, especialmente durante e depois da pandemia de covid-19. O movimento não pode ser resumido a um único perfil, mas reportagens internacionais e dados oficiais indicam que parte dessa nova leva buscou o país sul-americano por razões econômicas, políticas, religiosas e sanitárias.
Segundo dados da Dirección Nacional de Migraciones citados pelo jornal espanhol El País, ao menos 1.644 alemães concluíram processo de radicação no Paraguai em 2021, quase o triplo do registrado em 2020. Até 30 de março de 2022, outros 575 já haviam completado o mesmo processo. O jornal também informou, com base na autoridade migratória paraguaia, que a Alemanha havia se tornado, durante a pandemia, a nacionalidade europeia com mais expatriados no país, atrás apenas de brasileiros e argentinos no total de comunidades imigrantes.
O interesse alemão pelo Paraguai, no entanto, não começou com a pandemia. O próprio consulado da Alemanha em Assunção já havia afirmado ao jornal paraguaio ABC Color que a migração alemã para o país tem “uma longa história” e “não começou ontem”. Entre os marcos históricos estão a criação de Nueva Germania, no fim do século 19, e a presença de comunidades menonitas, especialmente no Chaco paraguaio.
A diferença está na onda recente. Em 2021, até 14 de outubro, 1.077 alemães haviam recebido radicação no Paraguai, contra 636 em todo o ano de 2020, segundo dados citados pelo ABC Color. O jornal paraguaio também apontou que a pandemia, as políticas sanitárias na Alemanha, o clima e a hospitalidade local apareciam entre os fatores que ajudavam a explicar a escolha do Paraguai como destino.
O crescimento não parou no período imediatamente posterior à crise sanitária. Em 2024, a Dirección Nacional de Migraciones informou que 1.071 alemães obtiveram residência no Paraguai, o equivalente a 3,76% do total de radicados naquele ano. A Alemanha apareceu como a terceira nacionalidade com mais residências concedidas, atrás de Brasil e Argentina.
Em 2025, a presença alemã seguiu entre as maiores. Até outubro daquele ano, a Alemanha somava 1.593 solicitações de residência, 4,17% do total, novamente atrás de Brasil e Argentina.
No fechamento de 2025, a autoridade migratória paraguaia registrou 1.652 residências concedidas a alemães, o terceiro maior número entre todas as nacionalidades.
Um relatório regional sobre movimentos migratórios na América do Sul também mostra que o Paraguai teve aumento nas residências entre 2015 e 2022. No caso das residências gerais permanentes, o documento aponta que elas chegaram ao máximo em 2022 e destaca a nacionalidade alemã com 20% de participação nesse grupo.
Parte da repercussão internacional em torno dessa migração veio da associação de alguns novos moradores a grupos contrários a vacinas e restrições sanitárias. O caso mais citado é o Paraíso Verde, em Caazapá, projeto de comunidade privada formado principalmente por imigrantes de língua alemã, incluindo alemães, austríacos e suíços. O The Guardian descreveu o local como uma comunidade de 1.600 hectares e informou que seus proprietários pretendiam ampliar a população de 150 para 3 mil pessoas.
A reportagem britânica afirmou que a chegada de imigrantes ao Paraíso Verde aumentou desde o início da pandemia, com moradores atribuindo a mudança ao ceticismo sobre o vírus e as vacinas. Ainda segundo o The Guardian, a região de Caazapá passou de quatro novos residentes alemães em 2019 para 101 em 2021, de acordo com dados oficiais citados pelo jornal.
O EUobserver, veículo especializado em cobertura europeia, também tratou o Paraíso Verde como um projeto associado a discursos antivacina e de extrema direita. A publicação afirmou que a comunidade reunia cerca de 150 moradores, em sua maioria austríacos, alemães e suíços de língua alemã, e citou materiais de divulgação ligados a palavras de ordem contra máscaras, obrigatoriedade de vacinação e medidas sanitárias.
Apesar desse recorte, especialistas e autoridades ouvidos pela imprensa paraguaia alertam que a presença alemã no país é mais ampla e diversa. O cônsul alemão Frank Gauls disse ao ABC Color que não há números exatos sobre quantos alemães vivem no Paraguai, porque nem todos informam oficialmente para onde emigram. Segundo ele, a estimativa consular variava de 22 mil a 30 mil alemães com nacionalidade alemã no país, além de cerca de 300 mil pessoas de origem alemã.
A nova onda, portanto, mistura fatores diferentes. Há aposentados e famílias em busca de custo de vida mais baixo, estrangeiros interessados em terras e comunidades rurais, grupos religiosos conservadores, críticos das políticas sanitárias europeias e pessoas atraídas pela legislação migratória paraguaia. A Dirección Nacional de Migraciones atribuiu o crescimento recente de residências no país a fatores como sistema tributário favorável, localização estratégica, custo de vida competitivo e processos de residência considerados mais acessíveis em comparação com outros países.