Migração

Alemanha x Paraguai coloca rota migratória recente em pauta

Segundo dados da Dirección Nacional de Migraciones citados pelo jornal espanhol El País, ao menos 1.644 alemães concluíram processo de radicação no Paraguai em 2021

Erick Tedesco
30/06/2026 às 07:07.
Atualizado em 30/06/2026 às 07:16
Partida da Copa reacendeu debate sobre migração alemã ao Paraguai (IA)

Partida da Copa reacendeu debate sobre migração alemã ao Paraguai (IA)

A vitória do Paraguai sobre a Alemanha na Copa do Mundo, nesta segunda-feira (29), colocou frente a frente duas seleções com histórias muito diferentes no futebol e também chamou atenção para uma relação recente fora dos gramados. O Paraguai eliminou os alemães nos pênaltis, por 4 a 3, após empate por 1 a 1 em 120 minutos, em Foxborough, nos Estados Unidos, e avançou às oitavas de final. Foi a primeira derrota da Alemanha em uma disputa de pênaltis em Copas, segundo a Reuters.

Fora de campo, o confronto também permite olhar para um fenômeno migratório que ganhou repercussão nos últimos anos: a chegada de alemães ao Paraguai, especialmente durante e depois da pandemia de covid-19. O movimento não pode ser resumido a um único perfil, mas reportagens internacionais e dados oficiais indicam que parte dessa nova leva buscou o país sul-americano por razões econômicas, políticas, religiosas e sanitárias.

Segundo dados da Dirección Nacional de Migraciones citados pelo jornal espanhol El País, ao menos 1.644 alemães concluíram processo de radicação no Paraguai em 2021, quase o triplo do registrado em 2020. Até 30 de março de 2022, outros 575 já haviam completado o mesmo processo. O jornal também informou, com base na autoridade migratória paraguaia, que a Alemanha havia se tornado, durante a pandemia, a nacionalidade europeia com mais expatriados no país, atrás apenas de brasileiros e argentinos no total de comunidades imigrantes.

O interesse alemão pelo Paraguai, no entanto, não começou com a pandemia. O próprio consulado da Alemanha em Assunção já havia afirmado ao jornal paraguaio ABC Color que a migração alemã para o país tem “uma longa história” e “não começou ontem”. Entre os marcos históricos estão a criação de Nueva Germania, no fim do século 19, e a presença de comunidades menonitas, especialmente no Chaco paraguaio.

A diferença está na onda recente. Em 2021, até 14 de outubro, 1.077 alemães haviam recebido radicação no Paraguai, contra 636 em todo o ano de 2020, segundo dados citados pelo ABC Color. O jornal paraguaio também apontou que a pandemia, as políticas sanitárias na Alemanha, o clima e a hospitalidade local apareciam entre os fatores que ajudavam a explicar a escolha do Paraguai como destino.

O crescimento não parou no período imediatamente posterior à crise sanitária. Em 2024, a Dirección Nacional de Migraciones informou que 1.071 alemães obtiveram residência no Paraguai, o equivalente a 3,76% do total de radicados naquele ano. A Alemanha apareceu como a terceira nacionalidade com mais residências concedidas, atrás de Brasil e Argentina.

Em 2025, a presença alemã seguiu entre as maiores. Até outubro daquele ano, a Alemanha somava 1.593 solicitações de residência, 4,17% do total, novamente atrás de Brasil e Argentina.

No fechamento de 2025, a autoridade migratória paraguaia registrou 1.652 residências concedidas a alemães, o terceiro maior número entre todas as nacionalidades.
Um relatório regional sobre movimentos migratórios na América do Sul também mostra que o Paraguai teve aumento nas residências entre 2015 e 2022. No caso das residências gerais permanentes, o documento aponta que elas chegaram ao máximo em 2022 e destaca a nacionalidade alemã com 20% de participação nesse grupo.

Parte da repercussão internacional em torno dessa migração veio da associação de alguns novos moradores a grupos contrários a vacinas e restrições sanitárias. O caso mais citado é o Paraíso Verde, em Caazapá, projeto de comunidade privada formado principalmente por imigrantes de língua alemã, incluindo alemães, austríacos e suíços. O The Guardian descreveu o local como uma comunidade de 1.600 hectares e informou que seus proprietários pretendiam ampliar a população de 150 para 3 mil pessoas.

A reportagem britânica afirmou que a chegada de imigrantes ao Paraíso Verde aumentou desde o início da pandemia, com moradores atribuindo a mudança ao ceticismo sobre o vírus e as vacinas. Ainda segundo o The Guardian, a região de Caazapá passou de quatro novos residentes alemães em 2019 para 101 em 2021, de acordo com dados oficiais citados pelo jornal.

O EUobserver, veículo especializado em cobertura europeia, também tratou o Paraíso Verde como um projeto associado a discursos antivacina e de extrema direita. A publicação afirmou que a comunidade reunia cerca de 150 moradores, em sua maioria austríacos, alemães e suíços de língua alemã, e citou materiais de divulgação ligados a palavras de ordem contra máscaras, obrigatoriedade de vacinação e medidas sanitárias.

Apesar desse recorte, especialistas e autoridades ouvidos pela imprensa paraguaia alertam que a presença alemã no país é mais ampla e diversa. O cônsul alemão Frank Gauls disse ao ABC Color que não há números exatos sobre quantos alemães vivem no Paraguai, porque nem todos informam oficialmente para onde emigram. Segundo ele, a estimativa consular variava de 22 mil a 30 mil alemães com nacionalidade alemã no país, além de cerca de 300 mil pessoas de origem alemã.

A nova onda, portanto, mistura fatores diferentes. Há aposentados e famílias em busca de custo de vida mais baixo, estrangeiros interessados em terras e comunidades rurais, grupos religiosos conservadores, críticos das políticas sanitárias europeias e pessoas atraídas pela legislação migratória paraguaia. A Dirección Nacional de Migraciones atribuiu o crescimento recente de residências no país a fatores como sistema tributário favorável, localização estratégica, custo de vida competitivo e processos de residência considerados mais acessíveis em comparação com outros países.

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