
Jair Vitti e a coleção de peças indígenas que ele encontrou nas terras do bairro Santana (Mateus Medeiros/Gazeta de Piracicaba)
Como escreveu Ecléa Bosi, em sua obra Memória e Sociedade, todo velho guarda em suas lembranças o período em que a vida se desenvolvia na plenitude e a felicidade parecia andar ao lado. Era o "seu tempo", quando a presença na sociedade era marcante, os amigos estavam sempre ao lado, as coisas aconteciam como o planejado, os sentimentos vibravam, enfim. "Naquele tempo tudo era muito melhor, eu era jovem..." Tempo que se torna memória e deixa marcas profundas, como um sonho que se tornou realidade, mas se foi. Nostalgia.
Mas cada velho tem sua forma de trabalhar o tempo. Uma delas é deixar que a vida continue fluindo em toda a sua potencialidade. Uma conversa com Jair Vitti, neto de tiroleses, que passou a maior parte da vida em ambiente rural, na Fazenda Santana (que hoje leva o nome do bairro), revela um sentimento híbrido. Sua memória guarda sim seu tempo de felicidade plena. Os cafezais, o roçado de feijão e milho, o ribeirão para pescar lambari, as caças e as festas comunitárias embaixo de árvores gigantes, com muitas canções e louvor. No entanto, logo cedo, encontrou a chave para dar vazão aos seus sentimentos e fugir do estigma de choramingas: a música.
Como um segredo, escondido do próprio mágico, ele aprendeu a tocar cavaquinho, violino, violão, órgão e saxofone. Como isso se deu? Talvez seus grandes professores tenham sido a vocação natural, a tradição musical da família, o tempo e a dedicação. Um amalgama inexplicável. Durante 40 anos, por exemplo, foi o tocador oficial de órgão na igreja sem nunca ter frequentado uma escola de música. Animou aniversários, bailes, forrós. Depois que comprou do tio Isac um saxofone, nunca mais deixou o instrumento empoeirar. Provocado, as velhas músicas românticas do seu tempo surgem do instrumento com naturalidade que até os alicerces da igreja do bairro se regozija do abuso do velho filho que a provocou com suas andanças pelo mundo, mas que a acalenta com seu sopro sentimental e sincero.
Um índio
Depois voltamos para falar dos Santana. Antes, porém, vamos destacar o olhar de Jair Vitti para a Natureza local. Sua observação não foi capaz apenas de captar as mudanças na vegetação e na cultura da fazenda. Ainda menino percebeu que pisava em território indígena. "Eles devem ter vivido nessa região nos primórdios. Em frente de casa, quando morávamos na parte baixa da fazenda, encontrei a primeira ponta de flecha e achei aquilo muito interessante. Eu tinha uns 8 anos. Depois passei a me especializar nessa procura de vestígio dos verdadeiros donos do Brasil".
Jair Vitti conta que percebeu uma abertura para ter acesso mais fácil aos segredos desse antepassado brasileiro. "Depois que o trator preparava a terra para o plantio e vinha chuva forte, o desmanche da superfície dura de torrões revelava uma infinidade de peças produzidas por esta tradição. Eu corria para coletar vestígios de uma história fascinante, que depois eu lia em livros. Hoje tenho uma coleção com cerca de 4.000 peças, entre pontas de flecha, utensílios de cozinha e objetos curiosos que nem sei com precisão para que servem. Só sei que são de índios que viveram ou passaram nessa região e precisam ser melhor estudados".
É com este olhar sensível que sonha poder voltar no tempo, de preferência, para os anos de 1940, quando ainda era criança, o verde era mais verde. Seu pai (nome do pai) tinha um moinho de arroz, as bananeiras floridas animavam o horizonte e, como um índio tirolês, Jair Vitti cultivava o milho, a mandioca e o feijão para vender ao Mercado Municipal da cidade. As festas em famílias eram intermináveis. Horizonte fortemente poético comprometido com a chegada da cana de açúcar, no início dos anos 1950. "A cana estragou tudo", costuma afirmar. Mas a música o redimiu da sina de ser um velho a lamentar o destino. Muito pelo contrário. Aos 86 anos e um espírito jovem, fez o seu próprio destino com o velho e o novo saxofone, circulando pela região, animando festas rurais e das cidades, levando sentimento bom aos corações nostálgicos inclusive a locais longínquos. Some-se a tudo isso mais 400 crônicas e artigos publicados nos jornais de Piracicaba.
De volta ao lar
Jair Vitti é nascido no bairro rural de Santana em 9 de dezembro e 1936, vai fazer 86 anos em dezembro. Seus pais também nasceram no Brasil, (Maria Degaspari Vitti) em Rio Claro e (Jacob Vitti) em Santana. O bisavô Bortollo e Maria vieram de Trento em 1877, há 149 anos, da cidade de Cortezano. No navio estavam o casal e seus 10 filhos. Foram 22 dias de viagem para atravessar o Atlântico. Um dos filhos, inclusive, Otávio, nasceu durante o percurso. "Outro era meu avô". Meu pai conheceu minha mãe, Maria Degaspari Vitti, e se casaram. Tiveram 11 filhos. Jair Vitti se casou com dona Isabel Vasca Vitti, com quem teve mais seis filhos: Juraci Aparecida Vitti, Josué Almir Vitti, Maria Albertina Vitti. Forti, Moisés Jacob Vitti, Alzira Valdilene Vitti Correr, Eliane Isadora Vitti Forti. Família grande e com espírito musical. "No ano em que eu nasci, meu avô Ângelo Vitti morreu. Me levaram ao colo dele ainda bebê e ele disse: 'Ah, esse aqui não vai me conhecer'. Estava bem doente. Noemia Vitti, mãe do meu pai, essa eu conheci. Eu era criança e ela vinha em casa para brincar com a gente".
A propriedade começou com o plantio de café. A cana veio em 1950. Até se tornar fornecedora de matéria prima para a usina de açúcar, foi uma longa negociação.
"Um dos agentes dos Ometto (proprietários da usina Costa Pinto) disse que todos aqui teriam que trabalhar inclusive aos domingos para darmos conta da produção. Meus pais e tios se reuniram e pediram para falar direto com Pedro Ometto. Quem veio conversar conosco foi o Celso Silveira Mello, que também era um dos donos da usina. Foi falado para ele. 'Se for para trabalhar até de domingo, nem começa essa parceria'. Celso respondeu: 'Não senhor, façam a sua vida, como estão acostumados'. Aí começamos a plantar cana". Entre o período do café e da cana, a fazenda produzia café, arroz, feijão, banana e algodão. Toda semana vinha um caminhão do mercadão e levava a produção completa. Mas a agricultura familiar havia chegado em seu limite e era preciso encontrar uma fonte de recursos segura para os tiroleses. A cana foi um problema e uma solução.
Seu tempo
Jair Vitti fez o primário na Escola Samuel de Castro Neves, do bairro, e até 1968 trabalhou na roça. Depois passou a ser pedreiro e carpinteiro, aposentando-se em 1993, quando seu plano se voltou integralmente para a música. "Eu gostava muito de tocar instrumentos. "Aos oito anos tocava cavaquinho nas festas da escola. Cantava e fazia as festinhas. Aprendi tudo sozinho. Passei ao violino, com o qual fazia bailinho. Esses instrumentos, inclusive, são considerados relíquias da família. O violino é de 1732. Depois passei para o sax, que é o instrumento atual".
O primeiro sax que foi comprado de um dos integrantes da banda dos antigos de Santana, que existia desde 1929. "Meu pai tocava tuba nela. Eram mais de 20 músicos no grupo original. Quando terminou a banda, por volta de 1957, Isac Vitti estava ensaiando em uma sala e eu fiquei parado na porta assistindo. Ele me perguntou: 'Quer tocar?' Eu disse que queria aprender. Ele me falou que estava vendendo o instrumento por três mil réis. Mas me disse também que se eu tocasse uma música inteira, ganharia o instrumento de presente. Quase toquei. Saí de lá e fui conversar com meu pai. 'Eu queria comprar o saxofone do Isac, porque vou aprender a tocar’. Ele aprovou e disse que íamos juntar o dinheiro. Juntamos. Mas aconteceu um fato no meio do caminho. Meu irmão tinha quatro filhos que, quando chegava aos sete, oito anos de idade morriam de uma doença estranha, que ninguém sabe qual é até hoje. A última das filhas, ele resolveu levar para o padre de Itambaú benzer. Alugaram um caminhão. Meu irmão levou o dinheiro do sax para caso de emergência. Meu pai achava que ele não devia levar e observou que era para pagar o saxofone. 'Vai que o ladrão te rouba?' Levou o dinheiro mesmo assim. Na hora de erguer a menina para a bênção, o ladrão enfiou rapidamente a mão no seu bolso e levou tudo, inclusive a parte que era para pagar a viagem. Quando chegou em casa, foi só lamentação. Contei a história toda para o Isac e ele me disse: 'Não tem problema, o sax é seu'. Meu pai não achou certo e pagamos o instrumento com um saco de arroz beneficiado, mais mil e quinhentos réis".
A história prossegue. "Até 1972, toquei com esse sax em muitos carnavais. Mas acabaram os carnavais. Passei a tocar na região em bailes de Campinas, Araras e Cordeirópolis. Formamos a banda Vitti e seu Conjunto. O símbolo eram dois ramos de café, que um pintor desenhou no bumbo. Tinha também saxofone, sanfona, cavaquinho, violão e pandeiro. Depois entrei na Banda do Linhão. Também nos apresentamos em todos os cantos da região. Fomos para a Banda do Zambeta e depois na Banda do Barriga, onde havia uma sanfoninha boa de festa, mais teclado e baixo, além do sax. Em um mês fizemos 28 bailes. Era apresentação quase que todos os dias. Com a barriga chegamos a nos apresentar inclusive em Botucatu. Dando continuidade, fui tocar com o grupo Paulinho e Banda, de Sorocaba. Nesse período viajei muito pela região do Paraná, onde fazíamos de quatro a cinco bailes por semana. Saí do Paulinho e foi para o Forró Malícia. Continuamos no Paraná, onde fiquei por quatro anos, no mesmo ritmo. Toquei inclusive com Roberto Carlos. O fato é que há uns 10 anos decidi voltar para Santana, minha terra. Agora estou na Banda Novo Toque, e vamos nos apresentar neste domingo Clube dos Saudosistas, neste domingo. Teclado, guitarra, sax, tombadora e sanfona. A agenda nossa está só crescendo. Temos também um grupo com o meu filho, Josué, é a banda “EU”, em que Josué comanda a guitarra. Não paramos".
Questionado como é sua vida, vem a nostalgia. "Aqui é um lugar tranquilo, do qual eu gosto muito, porque é onde eu fui feliz. Mas gostaria mesmo que voltasse ao tempo antigo. A vida era melhor. Não tinham salário e vivíamos uma vida plena. Era sem desânimo e muita alegria. A cana estragou tudo, até o planeta. Não via a hora que chegasse domingo para caçar. Tinha uma espingarda de pólvora, que não matava nada. Uma vez ela explodiu na cara do meu irmão e ele precisou ir ao médico para tirar chumbo por chumbo com pinça do rosto. Eu gostava de pescar no ribeirão. Era um ribeirão que desaguava em Artemis. Hoje é só um fio de água. Está quase morto. Eu queria, portanto, que voltasse ao ano de 1940, quando a área verde e as tradições da comunidade eram absolutas. Desde criança me lembro, nunca quis derrubar uma árvore. Era uma coisa sagrada. Se fosse por mim, o Brasil estaria ainda intacto, como no tempo dos índios". Um índio tirolês.