Circo

Trupe do Veneno: Vida dedicada ao riso

Família Veneno celebra 35 anos de comédia e mantém viva a tradição circense em Piracicaba

Rogério Verzignasse
09/09/2025 às 07:11.
Atualizado em 09/09/2025 às 07:12
Sob a lona que já abrigou tantos risos, Veneno e seu filho Rico compartilhavam o legado de uma vida inteira dedicada à arte popular (Divulgação)

Sob a lona que já abrigou tantos risos, Veneno e seu filho Rico compartilhavam o legado de uma vida inteira dedicada à arte popular (Divulgação)

Quem passou pelo Teatro do Engenho na semana passada pôde se divertir com a apresentação da tradicional Família Veneno, que celebrou seus 35 anos de trajetória com a comédia. No palco, a trupe encenou a peça Os Caçadores de Drácula, uma narrativa que mistura humor, música, coreografias e situações inusitadas — marca registrada do grupo. Como de costume, não houve cobrança de ingresso: bastava doar um quilo de alimento não perecível ou um litro de leite. Diversão e solidariedade, lado a lado.

O espetáculo também foi uma homenagem à história da família, que por décadas percorreu a região com seu circo mambembe.

Desde o início dos anos 1950, o grupo levava arte popular a diversas cidades, com palhaços, atores e cantores sertanejos dividindo o picadeiro e encantando plateias lotadas. Sob aquela lona, se apresentaram artistas que mais tarde se tornariam ícones da música caipira, como Pedro Bento e Zé da Estrada, Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Craveiro e Cravinho, Trio Parada Dura, entre tantos outros que viviam da música e do aplauso. Era um tempo romântico, sem internet, em que o rádio reinava como principal meio de comunicação.

A história do circo é contada por Diógenes Donizete Moreira, o Rico Veneno, de 57 anos, neto dos fundadores Osvaldo Moreira e sua esposa Dalila. Rico é figura conhecida na cidade: apresenta um programa de variedades todas as manhãs na Band FM e, fora do estúdio, lidera a família nas montagens teatrais. Pai de três filhos e avô do pequeno Enrico, ele garante que todos participam das apresentações — seja no palco, seja nos bastidores.

“As montagens de hoje revivem o espírito irreverente do circo. Estamos na quinta geração da trupe e mantemos a mesma linguagem que tornou o grupo famoso na cidade, década após década”, afirmou o radialista à Gazeta.

A história, sob a lona

A origem da trupe remonta à juventude de Osvaldo Moreira, então com 18 anos, que ajudava o pai em um armazém em Pitangueiras, na região de Ribeirão Preto. Encantado por um circo que passou pela cidade, decidiu abandonar tudo e seguir com a caravana.

Tornou-se palhaço e adotou o nome artístico de Veneno. Durante suas andanças, conheceu Dalila, com quem fugiu para se casar — prática comum na época, quando romances intensos ainda eram tabu. Juntos, decidiram fundar seu próprio circo em Piracicaba. Tiveram quatro filhos, todos incorporados à trupe desde o nascimento.

Embora tivessem uma casa na região do atual Piracicamirim, a vida da família acontecia nas carrocerias de caminhão, viajando por toda a região e erguendo a lona onde houvesse espaço. Quando não havia temporada marcada, permaneciam em Piracicaba, circulando de bairro em bairro, inclusive em fazendas.

“Quando a lona do Veneno começava a se erguer, a expectativa tomava conta dos moradores. A notícia se espalhava rapidamente.  Vinha gente de todas as fazendas e sítios vizinhos para se divertir, para noites mágicas, onde o riso se tornava ritual e cada arquibancada de tábua fina virava palco de sonhos compartilhados. Quantos risos, quantas gargalhadas... Os pirulitos puxa-puxa, em forma de guarda-chuva, eram irresistíveis. Grudavam nos dentes, mas adorávamos. Era uma novidade”, relata uma ex-moradora da Fazenda Boa Vista, por onde o Oswaldo Moreira espalhava alegria com o seu personagem irreverente: o palhaço Veneno. 

Segundo Rico, o circo funcionou até 1990, quando nunca mais ergueu a sua lona.  Era o início de uma nova era, marcada pela popularização da televisão e dos aparelhos de som modernos. A arte circense mambembe foi perdendo espaço, mas o amor pela representação teatral permaneceu intacto.

Na montagem de Os Caçadores de Drácula, 13 integrantes da família subiram ao palco. “É uma vida inteira dedicada ao riso, divertindo crianças de 8 a 80 anos”, resume Rico. E, como ele mesmo diz, o espetáculo não pode parar.

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