Artista construiu seu diferencial com um combinado de mosaico com aquarela, blocos geométricos sólidos, elaborados com técnicas de aguada

Ceres e Klaus Reichardt, Juliano Dorizotto e Pedro Maurano na entrega do quadro doado à Società Italiana di Mutuo Soccorso de Piracicaba (Divulgação)
Homem de muitos mundos, o artista plástico Klaus Reichardt se notabilizou ao firmar pé na aquarela e tirar da influência líquida da técnica ensinamentos mais sólidos e objetivos para a construção dos seus cenários.
Ele é o criador do que chama de ‘Mosairela’, um combinado de mosaico com aquarela. São blocos geométricos sólidos, elaborados pacientemente com técnicas de aguada, que estruturam as imagens e dão a elas algo de esteticamente novo. Parece que não é aquarela, mas é.
Seus quadros ganham também em ousadia pelo jeito diferente de elaborar os reflexos de imagens na água, que não seguem a cartilha natural da aquarela, com a tinta aguada se dissolvendo em papel poroso. Ele investe novamente na solidez da textura, explorando um híbrido de técnicas.
Esse jeito Klaus de ver o mundo, ou melhor, esse jeito Nikolaus, que é o nome artístico com que assina suas obras, se explica pelo seu filtro geométrico na concepção de imagens. Mas, antes de tudo, pela sua formação como físico.
Nascido em 1940 na cidade de Santos, Klaus veio para Piracicaba estudar agronomia na Esalq/USP e foi diplomado com a turma de 1963. Logo recebeu o convite para ser professor assistente no Departamento de Física e Meteorologia e sua vida acadêmica se consolidou.
Um grande salto ocorreu em 1983, quando ele tornou-se funcionário da ONU, em Viena, Áustria, onde permaneceu por três anos. Foi um período de muitas experiências e viagens marcantes, como a que fez para a Tailândia, onde se deparou com o quadro que o inspirou fortemente, indicando para algo parecido ao que se tornaria sua ‘mosairela’.
Era o acontecimento que faltava para o estimular no desvelamento da superfície sensorial do papel em branco. De volta a Piracicaba, seu primeiro passo foi se informar um pouco mais sobre a arte e suas técnicas, tendo como orientador o renomado professor e artista plástico Joji Kussunoki, que o deixava livre para experimentar.
Casado com a também esalqueana Ceres Pinto Viégas Reichardt, da turma de 1967, ele fez de sua casa um ambiente híbrido, de vivência familiar, ateliê de arte e estudos acadêmicos. Com a visão voltada para uma ordem estruturada do belo, produziu muitas obras, que sempre o levavam às mais diversas exposições. Hoje, Klaus, digo Nikolaus, mesmo aposentado, aos 85 anos, mantém sua rotina, com as aulas no campus da Esalq, a vida doméstica sempre serena e tranquila, e a arte, com os desafios infindáveis das suas emblemáticas ‘mosairelas’.
Todos os recursos financeiros que ele arrecada com a venda de suas obras têm um destino especial. Vai para uma causa Xavante. Trata-se de uma família indígena que ganhou sua atenção e proteção. Mas estamos aqui diante de uma história à parte, que mereceria uma matéria especial.