
Los Jaivas en Alturas de Macchu Picchu (Los Jaivas)
Antes de chegar às ruínas incas, Alturas de Macchu Picchu nasceu na França. Foi nos arredores de Paris, no período em que os chilenos Los Jaivas viviam no castelo Les Glycines, que o produtor peruano Daniel Camino apresentou à banda a ideia de transformar versos de Pablo Neruda em uma obra musical de alcance latino-americano. O resultado, lançado em 1981, tornou-se o disco mais emblemático da banda e um dos registros mais singulares da aproximação entre rock progressivo, música andina, poesia e imaginário continental.
A história tem todos os elementos de uma criação improvável. Uma banda chilena radicada na Europa, um produtor peruano obcecado por Machu Picchu, um poema de Neruda publicado em Canto General e a ambição de fazer o rock soar como uma travessia pelos Andes. Los Jaivas ainda não conheciam pessoalmente o sítio arqueológico quando começaram a trabalhar no repertório.
O primeiro encontro com Machu Picchu viria depois, quando a obra já estava composta e seria registrada em um especial audiovisual gravado no Peru, com apresentação do escritor Mario Vargas Llosa.

Los Jaivas é uma das bandas mais antigas ainda em atividade em toda América Latina (Los Jaivas)
Essa história volta agora aos palcos. A turnê internacional de 45 anos de Alturas de Macchu Picchu começa em 5 de dezembro, em Lima, no Peru, com apresentação dos Los Jaivas no Anfiteatro do Parque de la Exposición e participação dos peruanos Los Mirlos, referência da cumbia amazônica.
Para o público brasileiro, Los Jaivas ainda são uma descoberta possível. No Chile, a escala é outra. Formada em 1963, em Viña del Mar, a banda atravessa mais de seis décadas de atividade com uma linguagem que combina canção popular, improvisação, rock, psicodelia, instrumentos andinos e repertório latino-americano. Em Alturas de Macchu Picchu, essa combinação chegou ao seu ponto mais conhecido.
Alturas de Machu Picchu
O disco parte de trechos do poema “Alturas de Machu Picchu”, de Pablo Neruda, e transforma a palavra escrita em longas peças musicais. A banda construiu uma arquitetura sonora em que piano, guitarra, baixo, bateria, sintetizadores, quenas, zampoñas, charango e percussões latino-americanas sustentam uma narrativa de altitude, ruína, memória e ancestralidade.
Nos bastidores, o processo exigiu soluções próprias. Em “Águila Sideral”, a guitarra elétrica de Gato Alquinta passou por um sintetizador Minimoog antes de chegar ao amplificador, criando uma textura pouco convencional para o rock da época. Em outras passagens, o álbum trabalha camadas de sopros andinos, efeitos de repetição e timbres cristalinos associados à chamada “quena de cristal”, expressão que se tornou parte da mitologia em torno da sonoridade de “Antigua América”.
O especial audiovisual gravado em Machu Picchu ampliou o alcance simbólico do projeto. A presença de Mario Vargas Llosa na apresentação reforçou o caráter literário e continental da obra, que reunia Chile, Peru, Neruda, cultura andina e linguagem televisiva em um mesmo registro. O disco deixava de ser apenas um álbum de rock para se tornar também uma imagem: Los Jaivas tocando diante das ruínas que haviam inspirado o poema.
Los Jaivas pela América do Sul
A turnê de 45 anos retoma integralmente esse repertório. O show inclui faixas como “Del Aire al Aire”, “La Poderosa Muerte”, “Amor Americano”, “Águila Sideral”, “Antigua América”, “Sube a Nacer Conmigo Hermano” e “Final”. A fase comemorativa também incorpora composições inéditas criadas na década de 1970 e preservadas no arquivo histórico da banda.
A escolha de Lima para abrir a etapa internacional dá sentido adicional à celebração. O Peru está no centro da origem simbólica de Alturas de Macchu Picchu, e a presença dos Los Mirlos amplia o encontro para outra geografia musical. De um lado, o rock andino chileno dos Los Jaivas; de outro, a cumbia amazônica peruana de uma banda fundamental para a expansão psicodélica do gênero. O Brasil, no entanto, não está na rota.
A ponte brasileira dos Los Jaivas
A relação dos Los Jaivas com o Brasil também passa por Manduka, nome artístico de Alexandre Manuel Thiago de Mello, compositor brasileiro e filho do poeta amazonense Thiago de Mello. Em 1974, durante o período em que a banda estava instalada na Argentina após o golpe militar no Chile, Los Jaivas gravaram com Manduka o álbum Los Sueños de América, editado apenas em 1979.

Los Jaivas gravaram com Manduka o álbum Los Sueños de América, editado apenas em 1979 (Divulgação)
A sonoridade de Los Sueños de América antecipa parte do caminho que Los Jaivas aprofundariam depois em Alturas de Macchu Picchu: canção latino-americana, rock, percussões, flautas, piano e atmosfera andina aparecem em uma linguagem de travessia, marcada pelo exílio e pela ideia de continente. Faixas como “Date una Vuelta en el Aire”,
“Primer Encuentro Latinoamericano de la Soledad” e “Los Sueños de América” reforçam essa procura por uma música que ultrapassa fronteiras nacionais e aproxima a poética brasileira de Manduka do vocabulário instrumental chileno dos Los Jaivas.
Com mais de 60 anos de trajetória, Los Jaivas chegam à nova turnê como uma das bandas mais importantes da música chilena. Para o Brasil, onde seu nome circula sobretudo entre ouvintes de rock progressivo e música latino-americana, a porta de entrada mais direta está justamente em Alturas de Macchu Picchu: um disco criado na França, inspirado por Neruda, projetado por um produtor peruano e consagrado nas imagens de Machu Picchu.