Caipiras em destaque

História e legado de Craveiro e Cravinho

Cenas rurais e sentimentos autênticos da vida na roça, na cantoria da dupla famosa em Piracicaba

Romualdo Cruz Filho
17/01/2023 às 06:12.
Atualizado em 17/01/2023 às 06:12

Em suas canções, a dupla Craveiro e Cravinho fala da vida rural e simples, e da vida sofrida e do trabalho dos caipiras (Divulgação)

O conceito de caipira é elástico. No sentido originário, é fruto da relação direta do português com o índio. Os bandeirantes, em suas aventuras pelo país, nas primeiras fases da colonização, seriam os progenitores da matriz caipira ao interagirem com os primeiros habitantes do país. Em muitas circunstâncias havia uma relação consensual e fértil entre os europeus rústicos que para cá vieram e as mulheres das aldeias. Pelo menos é o que nos conta Gilberto Freyre. 

Toda a região do Médio Tietê, por onde transitaram os colonizadores em busca de um ouro de Mato Grosso, torna-se manancial de caipiras, com bolsões dispersos, onde se aglutinavam habitantes que não eram mais nem índio, nem portugueses, vivendo no caminho do meio entre os núcleos populacionais e as áreas remotas de mata fechada, a serem conquistadas.

Este é o caipira mirado por Monteiro Lobato em Urupês, considerado 'desprezível'. Antonio Cândido, em "Os Parceiros do Rio Bonito", já desenvolve, anos após, um olhar mais humano para as condições de vida e cultural dos velhos caipiras da região de Bofete, também interior de São Paulo. O escritor de O Sítio do Pica-pau Amarelo percebe a barbeiragem que cometeu ao agredir verbalmente o caipira do mato, sem-terra, sem futuro, e com uma prole a ser protegida das intempéries do meio, avesso às suas reais condições de vida. 

O caipira da historiadora Marly Perecin é todo aquele habitante dos bolsões caipira do interior paulista, vertente da qual nasce o Caipiracicabano. Não se trata mais de uma questão e riqueza ou de pobreza, mas sim de formação cultural, da sua relação com a terra, com a natureza, seu jeito de ser e levar a vida. Um diferencial que repercute inclusive em seu desenvolvimento econômico, com os muares, as viagens em direção a Santos para as exportações de açúcar, os encontros festivos nas cidades intermediárias. 

Nesta seara entra Cornélio Pires, que amplia significativamente o conceito de caipira, abrangendo pretos, brancos e índios, além de todas as variáveis do cruzamento entre eles, desde que relacionados à roça e a tudo que a cerca em termos de cultura e lazer, o que pode ser lido em "Conversa ao pé do fogo", uma das suas obras mais conhecidas. Do amálgama, evidencia o mestiço, que é o grande caipira, mas cuja classificação é colocada em cheque pelos novos senhores da academia, aprisionados ao marxismo e aos ditames da Fundação Rockefeller, como diria o antropólogo Antonio Risério, dando origem a uma série de enquadramentos artificiais da sociedade brasileira, que passa a ser vista por estereótipos artificiosos e politicamente corretos.

Enfim, Pederneira

Este gigante nariz de cera é para falarmos da dupla sertaneja Craveiro e Cravinho, representante de primeira ordem da cultura caipira no que há de melhor na musicalidade do gênero. Sebastião Franco, o Craveiro, nascido em 5 de fevereiro de 1931, e João Franco, o Cravinho, que veio ao mundo em dia 6 de setembro de 1939, são originários da cidade de Pederneira. Desde crianças acompanhavam o pai, Josué Franco, nas festas da região.

O pai também era cantor e se apresentava nas fazendas para um público autenticamente caipira. Sendo assim, levavam os filhos em suas turnês. Nada mais óbvios que as crianças desenvolvessem o gosto pela moda de viola. Quando menos se espera, estão os dois no palco no lugar do pai, uma dupla incrível que progride a olhos vistos. E não é que os meninos foram longe? Em pouco tempo estavam na Rádio Difusora de Piracicaba fazendo 'show de tremer auditório', como eles costumam contar. O sucesso em rádio nos anos de 1940, era a porta de entrada para uma carreira promissora. 

Sendo assim, em 1958, foram contratados pela Difusora de Piracicaba, rádio onde trabalharam por quase 20 anos. "A emissora dava a audiência e os shows aconteciam também nos circos. Viajamos o Brasil inteiro. Não havia estrada nem condução, mas a inclinação falava mais alto", contou Craveiro. 
Craveiro & Cravinho foram ouvidos pelo produtor e divulgador da música caipira, Teddy Vieira, que os levou para São Paulo. A partir de 1962, começaram a gravar discos e não pararam mais. Em 1967, tiveram a chancela de Tonico & Tinoco, os papas do gênero musical, e ganharam status de referência nacional como violeiros caipiras. "Conhecemos a dupla Tonico & Tinoco em Pederneiras. Mas nossa amizade começou mesmo aqui em Piracicaba. Ficamos muito amigos e eles nos propuseram fazer um long play. Foram eles também que escreveram na contracapa da obra: Tonico & Tinoco e nos apadrinharam. Nossa cantoria parecia muito com a deles, que formavam a maior dupla caipira do mundo", lembra Cravinho.

Vale observar que Craveiro é pai de Cezar & Paulinho e Cravinho, tio da dupla, segunda geração da música sertaneja. Craveiro é avô da dupla sertaneja Ed & Fábio Cezar, também irmãos, filhos de Cezar. A família forma, portanto, 4 gerações de violeiros profícuos.

Mensagem da obra

E qual é a mensagem predominante na obra de Craveiro e Cravinho? A vida rural, a vida simples, a cultura do mato, da pesca, da dança, do namoro, do franguinho na panela, da vida sofrida e do trabalho dos caipiras. Em suas canções proliferam frases poéticas que revelam um olhar apaixonado por um tempo e um estilo de vida cultuado por eles e pelos seus iguais. Franguino na panela, por sinal, é uma das músicas mais conhecidas na interpretação da dupla.

Tanto é que Craveiro e Cravinho fizeram sucesso no programa de Inezita Barros, 'Viola, Minha Viola' e tiveram seus nomes consagrados na discografia e, consequentemente, na cultura nacional. Esta história é contada pela própria dupla em entrevista ao jornalista Romualdo da Cruz, no Projeto Trajetórias, do Sesc Piracicaba, em parceria com a TV Unimep, que deve ir ao ar no primeiro semestre deste ano. Um conteúdo valioso que valida todos os estudos sérios sobre o caipira e sua relação apaixonada pela roça e pela natureza primitiva, independente da origem ou estereótipos raciais e de minorias.

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