
Psicólogo Eduardo Nalin é o organizador da mostra, que reúne rostos das vítimas da tragédia (Mateus Medeiros)
Uma exposição com fotografias, documentos e matérias de jornais da época relembra, neste mês, os 61 anos de uma das maiores tragédias da história de Piracicaba: a queda do Edifício Luiz de Queiroz, o popular Comurba, que ruiu no começo da tarde do dia 6 de novembro de 1964.
O acervo da mostra Comurba: Perdas Humanas permanece aberto para visitas gratuitas até o dia 5 de dezembro, no Poupatempo da praça José Bonifácio, exato local onde era construído o edifício que, em fase de acabamento, simbolizava a pujança de Piracicaba. O prédio tinha lojas comerciais e até um cinema no térreo, que já funcionavam. As obras seguiam nos apartamentos residenciais dos andares superiores.
O desabamento matou 50 pessoas e deixou dezenas de feridos. Houve vítimas soterradas por mais de uma semana nos escombros, que conseguiram sobreviver.
Já se passaram mais de seis décadas, sem conclusão definitiva acerca das causas do desabamento. Uma das hipóteses é a péssima qualidade do material de construção. Outra seria erro de cálculo estrutural: o prédio foi projetado para ter 12 andares, mas, por conta do sucesso nas vendas, acabou tendo 14. Também há relatos de que o estopim pode ter sido o enchimento da caixa-d’água, localizada exatamente no lado que ruiu.
Dessa tragédia, a única certeza é que o Comurba é o centro de uma história inacabada.
Um luto a ser elaborado
O organizador da exposição Comurba: Perdas Humanas, o psicólogo Eduardo Nalin, de 53 anos, nasceu e sempre morou em Piracicaba. Apaixonado pela história da cidade, ele afirma que sentia falta de uma placa ou memorial na praça, resgatando o acontecimento e celebrando a memória das vítimas. A cidade, por conta disso, é, a seu ver, como uma paciente que não consegue elaborar o luto e acomodar a perda.
Assim, ele mesmo tomou a iniciativa de formar o grupo ECO 64, um trabalho de psicoterapia psicanalítica em grupo de apoio. “Escolhi este nome porque trata do eco que resiste dentro de cada um dos que convivem até hoje com as consequências da tragédia”, observa Nalin.
O grupo nasceu de uma roda de conversa, em 2024. “Percebi uma demanda emocional entre as pessoas que estavam presentes. Eram familiares e sobreviventes tentando encontrar uma resposta ou pedir ajuda. A partir daquele momento, procurei a Catedral, expliquei a situação e me prontifiquei a desenvolver um trabalho. Cederam-me o espaço na igreja. A cada 15 dias nos reunimos, desde 2024”, diz.
Detalhe: Nalin montou a exposição de maneira voluntária. Ele próprio arrecadou o acervo. São 35 peças. Para reunir o material, percorreu cemitérios, Santa Casa, Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, Departamento de Documentos da Câmara Municipal, Esalq e casas das famílias que participam dos encontros na catedral.
A mostra é composta por rostos de pessoas que tiveram a vida interrompida. O nome de cada uma, com idade e causa mortis. Além de fotos, documentos e matérias de jornais, há gráficos que distribuem os dados e facilitam a leitura e o entendimento. As vítimas estão ali, no local exato da tragédia.