
Izelda Amaral lança livro na Câmara Municipal nesta quinta-feira (Divulgação)
A vida da socióloga, professora e escritora piracicabana Izelda Amaral é recheada de aventuras pelo mundo. Na América Latina, ela morou no Chile, Peru e Argentina. Na África, na Tunisia. Na Àsia e no Oriente Médio em países como Emirados Àrabes Unidos e Cazaquistão. Na Europa, Portugal, Alemanha, Inglaterra e nos anos mais recentes, Itália. Conversar com ela sobre essas experiências é uma rara oportunidade para conhecer culturas e costumes com um olhar bem diferente dos roteiros turísticos e históricos. Entre as aventuras, que se transformarão brevemente em livros temáticos, algumas quase viraram tragédia.
Durante a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque - para depor Saddan Hussein, e ter petróleo barato, história que se repetiu na Venezuela há alguns meses - Izelda e o marido, o engenheiro italiano Lodovico, um dos maiores especialistas em petróleo e gás, tiveram que sair às pressas de Abu Dhabi. Lodovico, um aficcionado por motos de grande porte, não queria largar a sua “máquina” por lá.
Decidiram, então,ir para a Itália sobre duas rodas. Entraram pela Arábia Saudita e, bem perto de uma das fronteiras com o Iraque, tiveram que desviar das bombas, durante a noite. Em um trecho da longa e monótona estrada no meio do deserto,foram parados por soldados do exército. O tempo todo apontavam as metralhadoras para ambos. Desconfiaram que o casal poderia estar em fuga por algum motivo, afinal não era comum naquele período, um casal de moto cruzando países sem parada definida.
Na dúvida, detiveram Izelda e Lodovico por mais de 12 horas. Lodovico foi mantido com a moto do lado da fronteira Síria e Izelda, do outro lado, já na Turquia, junto com refugiadas. Um via o outro, mas não podiam conversar. Ficaram assim uma noite e uma madrugada, sem pregar os olhos, sem se alimentar e sem saber o que aconteceria nas próximas horas ou dias. Até que no dia seguinte, foram liberados. Alguns quilômetros depois já exaustos e com fome e sede, foram parados novamente, agora pela polícia turca. Olharam documentos que estavam em uma carteira e, sem cerimônia, surrupiaram o dinheiro que eles haviam reservado para a viagem.
De Abu Dhab a Castiglione in Teverina, na Itália, na casa para onde sempre retornavam, foram longos 22 dias. A moto chegou bem e eles também. Detalhe: todo o percurso foi feito sem GPS. Essas e outras aventuras serão contadas no próximo livro da escritora.
Tortura
Nada se compara, no entanto, com o que aconteceu com Izelda, antes de sua peregrinação por todos esses países. Durante a ditadura militar no Brasil, na década de 1970, Izelda era oficialmente monitora de filosofia Unesp, em Araraquara. Foi perseguida, sequestrada e ameaçada por defender a democracia e os direitos humanos. Conseguiu fugir para São Paulo, mas não teve sossego, foi torturada no antigo local de repressão e mortes, no DOI CODI.
Em um determinado trecho do livro ela relata como foi recebida pela Operação Bandeirante, OBAN, responsável pelos crimes: “Tapas na cara e “telefones” no ouvido já experimentei logo na primeira hora, deixando bem claro qual era o tom da conversa. A prisão política, nesse contexto, não tem norte. Não respeita regras de nenhum código civil. O ar da ditadura é tão pesado, que criticar o governo já constitui um crime inafiançável. Participar de organizações que combatem a ditadura constitui um risco, quase uma sentença de morte.”
Roberto Souza é jornalista, assessor de relações com a mídia [email protected]
Serviço
Izelda lança nesta quinta-feira, dia 5, em Piracicaba, o livro No ar da ditadura. As primeiras 60 pessoas que registrarem o nome às 18n, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Piracicaba e permanecerem até o final, ganharão um exemplar do livro com autografo.
O livro pode ser adquirido pela Amazon.