Ilustre aniversariante

Ernst Mahle comemora 94 anos de vida

Mahle está com 94 anos, comemorados no último dia 3.

Romualdo Cruz Filho
10/01/2023 às 06:13.
Atualizado em 10/01/2023 às 06:15

Maestro está completando sua quinta ópera, "Inocência" (libreto M. Batuira, baseado em Visconde de Taunay) (Christiano Dihel Neto/Gazeta de Piracicaba)

Ernst Mahle continua produzindo. Esta seria a abertura de uma matéria jornalística banal, como aquela do cachorro que mordeu um homem. Segundo o velho professor de jornalismo, a matéria teria algum interesse social se fosse o homem a morder o cachorro. Mas a produção de Mahle tem um diferencial. O que a torna autêntica é o fato do maestro ser um dos únicos compositores contemporâneos a produzir ópera, um gênero que ficou muito tempo esquecido e parece estar ganhando uma nova força entre os apreciadores da arte musical. Há ainda um detalhe mais expressivo nesta história. Mahle está com 94 anos, comemorados no último dia 3. Ao que se conhece, segundo o próprio maestro, somente o italiano Giuseppe Verdi teve a proeza de escrever ópera até aos 80 anos. Estamos tratando, portanto, de um caso sui generis na história da música ocidental. Uma história integralmente local, piracicabana. Mas não ser desonesto com os alemães, tem uma mãozinha de Hitler nesse roteiro, mas este é assunto para um outro momento.

Para quem não conhece o homem, Ernst Mahle nasceu em 1929, em Stuttgart, Alemanha. Veio para o Brasil em 1951. Naturalizou-se brasileiro em 1962. Foi aluno de composição de Johann Nepomuk David, na Alemanha; de Hans Joachim Koellreuter, no Brasil, entre outros grandes mestres da música erudita. Mais interessante, conheceu dona Cidinha Mahle em cursos de férias em São Paulo, se encantaram e ele veio morar em Piracicaba, onde se casaram. Co-fundador da Escola de Música de Piracicaba, a instituição acabou ganhando seu nome: "Maestro Ernst Mahle". Em 1965 já era cidadão piracicabano. Sua produção musical, desde então, nunca parou. Sua proecupação maior era elaborar material didático para os alunos de música, escassos no país. Mas ele extrapolou esse universo e foi muito mais longe.

Cidinha Mahle certifica. Ele segue compondo sem parar. "Neste dia 5 de janeiro mesmo acabou de escrever um 'Duo para Violão e Violoncelo', atendendo a pedido de amigos da Alemanha, Stefan e Monica, que lecionam numa Escola de Música daquele país. Está sempre atendendo pedidos para compor". Mahle adora produzir obras com endereço certo e presentear seus melhores alunos. Ou melhor, aqueles que foram seus melhores alunos, uma vez que a sala de aula não é mais o seu lugar. Sua praia é o estúdio que tem em casa, onde está diariamente produzindo.

"O hábito de trabalho de Mahle é o seguinte: levantar mais ou menos às 6h da manhã, toma café e às 7 para 7h15 estar em seu Studio compondo, onde permanece até as 11h, quando vai nadar. Às 12h almoça, repousa até as 14h30 e às 15h está de volta ao Studio, onde fica até mais ou menos 18h. Toma seu chá e às 19 ou 19h30 já está em seu quarto lendo, sonhando ou pensando na próxima obra. Como Schubert, gosta de ter um papel de música ao lado da cama, pois em sonhos pode surgir uma ideia e vale a pena anotar... Para seus 94 anos é aquilo que consegue fazer ainda. Está muito bem". Quem nos conta esses detalhes é a dona Cidinha, que acompanha os passos do marido e o estimula sempre a fazer o que gosta.

Data festiva

Sobre o aniversário de 94 anos, dona Cidinha observa que os primeiros cumprimentos recebidos pelo maestro foram na madrugada do dia 3, da Itália, do violonista e professor do Conservatório de Milão, Francesco Biraghi. Depois chegaram as saudações dos ex-alunos, amigos e admiradores do Brasil e também da Alemanha. Mahle mantém boas relações com o universo musical, é admirado e suas obras são tocadas no mundo todo. Graças a ele, Piracicaba ganhou projeção mundial na formação de grandes instrumentistas e todos os que que o conheceram em sala de aula costumam dizer: "Esse homem é um gigante". Esta frase foi ouvida diversas vezes em manifestações dos irmãos Gobeth (Raul -violoncelo, e Rafael - flauta transversal), que tiveram essa grande felicidade.

Óperas

Voltanto ao mundo da ópera, Mahle escreveu até o momento agora quatro delas: "Maroquinhas FruFru" (texto M. C. Machado), "A Moreninha" (libreto J. M. Ferreira, baseado em J. M. Macedo), "O Garatuja" (libreto de Eugênio Leandro, baseado em J. Alencar), "Isaura" (libreto Marcelo Batuira, baseado em Bernardo Guimarães). No momento está completando sua quinta ópera, "Inocência" (libreto M. Batuira, baseado em Visconde de Taunay).

Perguntei à dona Cidinha o que levou Mahle a se ligar tão fortemente ao romantismo brasileiro para produzir suas óperas. "A escolha desses escritores vem do fato de ter esses livros em casa. Leu todos eles e tantos outros. Mas sentiu vontade de escrever óperas ao ler os mesmos, por achá-los muito adequados para o público", disse ela. "Não foram muitos os compositores brasileiros que escreveram óperas e esse gênero musical agora vem despertando audiência entre o público nacional e dai tem surgido algumas composições dessa natureza".

A inspiração, portanto, vem da biblioteca doméstica, que teve muita influência na escolha dos escritores que preferiu para compor suas óperas. Cidinha disse que na mesma biblioteca tem também muitas obras de autores alemães. "Mas por engraçado que pareça Mahle, ao escrever para canto, sempre se inspirou em texto de poetas brasileiros. Somente em 2022, pela 1ª vez, escreveu duas peças para canto e piano em alemão, a pedido de uma jovem cantora alemã, a poeta Einchendorff."

E a saúde?

O maestro tem artrose muito acentuada e por isso não consegue mais andar sem auxílio de bengala ou cadeira de rodas. "E a vista não é o que era antes. Mas o espírito é forte e a inspiração o ajuda a seguir em frente até quando Deus quiser". Palavras da dona Cidinha. Pelo que tudo indica, há uma estrada ainda a ser seguida, alimentada pelo desejo de ver 'Isaura' sair do papel. A obra deveria ser apresentada já no inícios de março. Foi aprovada pela ProAC (cortina lírica) e pela Lei Rouanet (com cena e orquestra). Mas ainda não encontrou os patrocinadores necessários. Dona Cidinha levanta essa bandeira e convida os empresários da cidade, do Estado, do Brasil, para que contribuam, porque os recursos doados são descontados em imposto de renda etc. 

A última observação necessária para esta matéria ser concluída é que o maestro Mahle é um gigante também no humor. Dizem que os alemães são carrancudos, Não é o caso. Na Empem, certa noite, o encontrei sorridente e se apoiando na bengala. Ele me disse: "De uma coisa eu tenho certeza. Quando eu morrer vou chegar do outro lado mancando". Deu as costas e subiu a escadaria de acesso à Sala de Concertos Dr. Mahle com boa desenvoltura e sem qualquer ajuda, além da muleta que alimentava o sorriso estampado em seu rosto.

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